Às vezes ela chegava a pensar que os dias podiam ser simples (de tão perfeitos).
Acordar de manhã, abrir a janela do quarto, ir até à varanda, e deixar-se beijar pelo sol e inundar pela brisa fresca que entraria em si. Sentir um arrepio bom e a pele a renascer. Começar um novo dia com uma inspiração profunda e de olhos fechados, para sentir os cheiros de um qualquer campo ali bem perto. O cheiro das árvores de fruto, das flores, do fumo das chaminés, da infância que está dentro. Voltar para dentro e tomar um banho morno, que purificasse o corpo e despertasse o coração. Vestir algo confortável mas que a faria sentir-se bonita e aconchegada, como só os dias de sol e frio conseguem. Sair à rua, dar os bons dias a quem passasse, parar no primeiro café com cheiro a pão acabado de fazer. Quentinho, com a manteiga caseira a derreter por cima, e o café quente a fumegar nas mãos. Folhear o jornal e ver apenas notícias boas, das que enchem o peito. Seguir depois em direcção ao mar, à praia que tem um encanto especial nos dias de Inverno. Quase deserta, antes da confusão dos meses que estão por vir. Nessa manhã, só dela. Só sua. A areia a brilhar, o mar ao fundo, o som que faz a chegar-se perto. Sentar-se. Deixar que a cabeça pensasse no que a ocupa. Sem culpas, sem tentativas de fuga, sem mostrar a direcção, sem filtros. Deixar apenas que as memórias do que vive trouxessem o sorriso tão seu. Deixar-se ficar, sem tempo marcado, sem horários, sem pressas. Segundos, minutos, horas… Respirar. Ser. Estar. Sentir. Deixar passar os ponteiros numa calma que os dias normais não permitem. Numa paz que raramente aparece. Deixar o corpo descansar do mal estar da rotina diária. Das mágoas, das dores, das lutas, da falta de abraços, dos afectos escondidos (perdidos). Levantar-se depois e caminhar… A distância necessária que o sentir peça para ser. Nunca menos que isso. E assim terminaria a manhã, e a tarde começaria a surgir.
Talvez com um almoço numa esplanada coberta (ainda com a mesma vista de cortar a respiração, pois há coisas que nunca são demais), com cadeiras confortáveis e carregadinha de aquecedores “cogumelo”, daqueles que deixam ser Inverno lá fora mas trazem o aconchego do Verão para dentro (ela sempre foi fascinada por estes aquecedores e este tipo de cenários, apesar de nunca ter percebido muito bem o porquê). No final do almoço ser surpreendida pela chegada da melhor das companhias. Abrir o seu melhor sorriso, aquele que só surge espontaneamente e em casos muito especiais, e deixar-se levar pelo braço. Fecharem bem os casacos para o frio não entrar e subirem para quem os levaria dali para fora e lhes mostraria o capítulo seguinte. Percorreriam quilómetros só pelo prazer de rolar, devagar, com o sol ainda a brindar a tarde, e o tal frio que entraria no corpo e os faria sentir vivos. Até chegarem a um qualquer destino, que tanto podia ser aquele como qualquer outro. Porque o que importa não é onde se chega, mas sim com quem se faz o caminho. Acabariam por se perder em conversas que durariam horas, que tornariam silêncio o que estivesse à volta. Acabariam por se perder em sorrisos e numa timidez só sua, que só tem quem sabe a certeza do que lhe vai dentro. E que por ser tão verdadeiro causa no estômago e na garganta e nos olhos uma sensibilidade que não se apaga. Acabariam por se perder em abraços apertados que apenas o sol a pôr-se conseguiria apartar. Em breve cairia a noite, e a hora seria de seguir em frente.
Desta vez resolveriam ir com mapa traçado, porque ambos sabiam como pretendiam terminar as horas. Regressariam ao ponto de partida (não é sempre assim? Não regressamos sempre ao último ponto onde fomos infinitamente felizes…?). Preparariam o jantar com cumplicidades que não se perdem, e a mesa seria posta no jardim, naquele local coberto e iluminado de um modo simplesmente perfeito para que a luz não faltasse e ao mesmo tempo não chegasse nunca a ser incómoda… Seria aberta a garrafa de tinto que estava reservada para os dias perfeitos (nunca perderam a esperança que os mesmos pudessem existir). Sentar-se-iam um em frente ao outro, olhos nos olhos (como é suposto olharem-se sempre as pessoas que nunca se querem perder de vista), e o sorriso tonto sair-lhes-ía do canto da boca, sem que disso dessem conta. Ao fundo começariam a soar as músicas que sempre os acompanharam, para aconchegar ainda mais a noite. Segurariam então com delicadeza os copos, que ergueriam depois à altura das bocas. Fariam o brinde que já lhes é familiar, e deixariam de se olhar apenas com os olhos. Agora fá-lo-íam com o corpo todo, o mesmo que já deixou de lhes pertencer sem que nada pudessem ter feito em contrário. Seriam já um do outro naquele brinde, naquele hora, naquele som, naquele olhar, naquele sorrir. Nessa noite, pelo menos nessa (e seria a única que importaria), nada quebraria o que se criou. Passariam segundos perdidos em abraços, no reconhecimento dos lábios, e no toque suave que aparece quando nem é necessário tocar.
Cairia então a noite escura e o dia findava. Ela deitaria a cabeça na almofada, descansando o corpo pleno de felicidade, e pensaria para si…
“Afinal, ainda há dias simples (de tão perfeitos).”
Em seguida abriria os olhos e veria que não repousava sozinha. Ao lado, um sorriso igual ao seu, uma serenidade como a sua. Reformularia então o que pensou segundos antes. Mas desta vez di-lo-ía em voz alta, onde tudo o que é dito se torna real.
“Afinal, ainda há vidas perfeitas (de tão, mas tão simples)”.
Fecharia os olhos e adormeceria, finalmente, em paz.