quinta-feira, 27 de novembro de 2014

(É) simples.

Às vezes ela chegava a pensar que os dias podiam ser simples (de tão perfeitos).

Acordar de manhã, abrir a janela do quarto, ir até à varanda, e deixar-se beijar pelo sol e inundar pela brisa fresca que entraria em si. Sentir um arrepio bom e a pele a renascer. Começar um novo dia com uma inspiração profunda e de olhos fechados, para sentir os cheiros de um qualquer campo ali bem perto. O cheiro das árvores de fruto, das flores, do fumo das chaminés, da infância que está dentro. Voltar para dentro e tomar um banho morno, que purificasse o corpo e despertasse o coração. Vestir algo confortável mas que a faria sentir-se bonita e aconchegada, como só os dias de sol e frio conseguem. Sair à rua, dar os bons dias a quem passasse, parar no primeiro café com cheiro a pão acabado de fazer. Quentinho, com a manteiga caseira a derreter por cima, e o café quente a fumegar nas mãos. Folhear o jornal e ver apenas notícias boas, das que enchem o peito. Seguir depois em direcção ao mar, à praia que tem um encanto especial nos dias de Inverno. Quase deserta, antes da confusão dos meses que estão por vir. Nessa manhã, só dela. Só sua. A areia a brilhar, o mar ao fundo, o som que faz a chegar-se perto. Sentar-se. Deixar que a cabeça pensasse no que a ocupa. Sem culpas, sem tentativas de fuga, sem mostrar a direcção, sem filtros. Deixar apenas que as memórias do que vive trouxessem o sorriso tão seu. Deixar-se ficar, sem tempo marcado, sem horários, sem pressas. Segundos, minutos, horas… Respirar. Ser. Estar. Sentir. Deixar passar os ponteiros numa calma que os dias normais não permitem. Numa paz que raramente aparece. Deixar o corpo descansar do mal estar da rotina diária. Das mágoas, das dores, das lutas, da falta de abraços, dos afectos escondidos (perdidos). Levantar-se depois e caminhar… A distância necessária que o sentir peça para ser. Nunca menos que isso. E assim terminaria a manhã, e a tarde começaria a surgir. 

Talvez com um almoço numa esplanada coberta (ainda com a mesma vista de cortar a respiração, pois há coisas que nunca são demais), com cadeiras confortáveis e carregadinha de aquecedores “cogumelo”, daqueles que deixam ser Inverno lá fora mas trazem o aconchego do Verão para dentro (ela sempre foi fascinada por estes aquecedores e este tipo de cenários, apesar de nunca ter percebido muito bem o porquê). No final do almoço ser surpreendida pela chegada da melhor das companhias. Abrir o seu melhor sorriso, aquele que só surge espontaneamente e em casos muito especiais, e deixar-se levar pelo braço. Fecharem bem os casacos para o frio não entrar e subirem para quem os levaria dali para fora e lhes mostraria o capítulo seguinte. Percorreriam quilómetros só pelo prazer de rolar, devagar, com o sol ainda a brindar a tarde, e o tal frio que entraria no corpo e os faria sentir vivos. Até chegarem a um qualquer destino, que tanto podia ser aquele como qualquer outro. Porque o que importa não é onde se chega, mas sim com quem se faz o caminho. Acabariam por se perder em conversas que durariam horas, que tornariam silêncio o que estivesse à volta. Acabariam por se perder em sorrisos e numa timidez só sua, que só tem quem sabe a certeza do que lhe vai dentro. E que por ser tão verdadeiro causa no estômago e na garganta e nos olhos uma sensibilidade que não se apaga.  Acabariam por se perder em abraços apertados que apenas o sol a pôr-se conseguiria apartar. Em breve cairia a noite, e a hora seria de seguir em frente.

Desta vez resolveriam ir com mapa traçado, porque ambos sabiam como pretendiam terminar as horas. Regressariam ao ponto de partida (não é sempre assim? Não regressamos sempre ao último ponto onde fomos infinitamente felizes…?). Preparariam o jantar com cumplicidades que não se perdem, e a mesa seria posta no jardim, naquele local coberto e iluminado de um modo simplesmente perfeito para que a luz não faltasse e ao mesmo tempo não chegasse nunca a ser incómoda… Seria aberta a garrafa de tinto que estava reservada para os dias perfeitos (nunca perderam a esperança que os mesmos pudessem existir). Sentar-se-iam um em frente ao outro, olhos nos olhos (como é suposto olharem-se sempre as pessoas que nunca se querem perder de vista), e o sorriso tonto sair-lhes-ía do canto da boca, sem que disso dessem conta. Ao fundo começariam a soar as músicas que sempre os acompanharam, para aconchegar ainda mais a noite. Segurariam então com delicadeza os copos, que ergueriam depois à altura das bocas. Fariam o brinde que já lhes é familiar, e deixariam de se olhar apenas com os olhos. Agora fá-lo-íam com o corpo todo, o mesmo que já deixou de lhes pertencer sem que nada pudessem ter feito em contrário. Seriam já um do outro naquele brinde, naquele hora, naquele som, naquele olhar, naquele sorrir. Nessa noite, pelo menos nessa (e seria a única que importaria), nada quebraria o que se criou. Passariam segundos perdidos em abraços, no reconhecimento dos lábios, e no toque suave que aparece quando nem é necessário tocar.

Cairia então a noite escura e o dia findava. Ela deitaria a cabeça na almofada, descansando o corpo pleno de felicidade, e pensaria para si…

“Afinal, ainda há dias simples (de tão perfeitos).”

Em seguida abriria os olhos e veria que não repousava sozinha. Ao lado, um sorriso igual ao seu, uma serenidade como a sua. Reformularia então o que pensou segundos antes. Mas desta vez di-lo-ía em voz alta, onde tudo o que é dito se torna real.

“Afinal, ainda há vidas perfeitas (de tão, mas tão simples)”.

Fecharia os olhos e adormeceria, finalmente, em paz.

Sem medos.

Como se reaprende o silêncio…?
Como voltamos a estar apenas connosco? Como se volta à estrada principal, depois de tantos anos por atalhos já traçados, já tão fáceis de seguir? Como se volta a ser um, depois de se ser muitos mais? Como se volta a acordar sozinho, e a adormecer apenas consigo?

Como se reaprende a solidão…?
Reaprende-se recomeçando. Do início. Sempre.
Reaprende-se na coragem de sermos inteiros, sem necessidade de só existirmos nos outros. Porque antes de sermos nós com eles, somos nós connosco. E tantas vezes nos esquecemos disso… Reaprende-se uma nova vida sem deixar a antiga. Aquela que nos formou, nos toldou, nos dobrou, nos marcou, nos bateu, nos fez chorar, nos fez sorrir, nos trouxe os piores e os melhores momentos possíveis. Aquela que nos fez crescer.
Nunca se abandona totalmente o que ficou. Porque somos feitos dessas poeiras. Somos carne dessas vivências. Somos pó na roupa e no corpo e na alma, dos anos que (nos) passaram. Fechamos a porta atrás de nós, e deixamos apenas o que nos faz mal. Porque tudo o resto, tudo o que já é parte de nós, fica para sempre por dentro. Nunca perdemos o que criámos, o que fizemos nascer, o que nos saiu do coração e do peito agora rasgado. Levamos connosco quem nos é tudo. Quem nos ficará para sempre, fechemos as portas que fecharmos atrás de nós.

Ninguém nos disse que os sonhos mudavam, ninguém nos avisou que os “para sempre” são parte do conto de fadas, ninguém nos preparou para não sermos felizes à primeira e nem (sequer) à segunda. Ninguém nos precaveu que pode haver a terceira, e que isso não irá nunca deitar por terra tudo o que (já) ficou. Ninguém nos contou que os filmes só existem no ecrã, e que na vida real, é raro acertar-se quando e como se quer. E ainda bem. Ainda bem que ninguém nos cortou os desejos logo de início. Porque assim conseguimos ser inconscientemente felizes e acreditar por momentos que a eternidade podia existir tal como a imaginávamos. Ainda bem que nos deixaram viver e partilhar sorrisos. Temos de ser nós a perceber quando esse sonho termina para dar lugar a outros. Sem ajudas, sem tempos extra, sem minutos de desconto, sem pausas. Perceber, agir, procurar, ser. Ter a força de mil homens para o que o amanhã nos reserva. E ser enorme ao fechar a porta. Para que, mesmo com o peito apertado e perdido no turbilhão, saibamos com todas as certezas, aquelas que só existem de vez em quando, que o importante vai sempre connosco. Nunca se perde.

Mudam as rotinas, mudam as vivências, mudam os cenários. Muda a casa, mudam as paredes, mudam os tectos e as luzes da rua. Mudamos nós com tudo. Não muda o nosso amor pelo que é (verdadeiramente) nosso. E pelo que nos terá (genuinamente) para sempre.

Como se reaprende o silêncio…? 
Sem medos, de cabeça erguida, e com a coragem de quem ousa ser feliz nem que por um momento, antes ainda que a vida termine e não exista nada para ter pena de ser tão cedo. Mesmo que aconteça daqui a cem anos… Se reaprendermos o silêncio, se formos nós connosco e com quem queremos bem, chegaremos ao fim sempre com pena de não haver mais tempo. Mas se nos deixarmos consumir pelo que ficou atrás das portas, o fim parecerá quase sempre tarde demais, para uma vida tão (ridiculamente, pensaremos então) pela metade.


O silêncio reaprende-se sozinho por fora e pleno por dentro. 
Porque mais importante que as feridas de quem fecha etapas que pensava durarem até ao fim, são os sorrisos de plenitude de quem abre as portas que estão em frente. Porque uma delas, a mais bonita, a que custar mais a abrir, a que tiver por cima o número com que nos identificamos, aquela onde soar a nossa música, e onde conseguirmos sentir os cheiros que nos fazem sentir quentes por dentro, aquela onde saberemos de imediato um dia vir a rir e a sentirmo-nos nós novamente, uma delas (essa mesmo…) trar-nos-á novamente aquela confusão barulhenta e tremendamente encantadora, a que chamamos Casa. E aí, estaremos de volta. Prontos para voltar a acreditar nos “para sempre”. Eternamente até durar.

A mais.

Estás a mais quando o mundo não te pertence.
Estás a mais quando o sorriso não é para ti.
Estás a mais quando te lembras que a pele é distante.
Estás a mais quando és apenas rascunho.
Estás a mais quando esta história não é (a) tua.
Estás a mais por sentires que não pertences a nenhum dos contos.
Pois um já está escrito (há muito)  e terá o final de que os filmes não abdicam.
E o outro está no início e só por vontade suprema passará das primeiras páginas.
Porque o herói é de outra história, de outro livro, de (um) outro filme.
E tu queres ser a protagonista e és papel secundário.
Queres ser rainha e não passas de princesa.
Queres ser inteira e és só metade.
Depois do “Era uma vez…” não entras mais.
Mas sempre te disseram que não há papéis pequenos, apenas pequenos actores.
E tu tens a estranha mania de acreditar no que ouves.
Então sentas-te na primeira fila, e esperas por uma qualquer fala que surja no ecrã, te tire a respiração e te devolva as certezas.
Agarras-te então a esta peça, que sabes não ser tua, e pensas reescrevê-la a partir da deixa certa, dita no segundo perfeito.
Arriscas pegar no lápis, no livro em branco, e ser directora dos (teus) conteúdos.
Juntas os cenários, as sensações, as músicas, os jeitos de ser, e fazes ser luz.
Se o filme não esgotar as bilheteiras, regressarás aos bastidores, que adoptarás como lugar, com uma resignação que nunca antes coube em ti.
Mas se esgotar… Ah, se esgotar… Ninguém te tirará o “ponto final” cliché de todas as histórias infantis que ouvimos em pequenos.
E nessa altura (só nessa altura), o tal do "para sempre" nunca te parecerá tão curto como então.

Tu (contigo)

No fundo, nunca te apercebes quando aconteceu. Quando foi aquele preciso momento em que tudo se deu. Acordas um dia e já não estás no sítio habitual. Não percebes como foi possível ires ali parar, se no fundo nunca fizeste nenhum desvio do caminho que devias seguir. Mas abres os olhos, e estás lá. Num lugar diferente, sem rede por baixo. Olhas em volta e já não está ninguém. Como se tivessem apagado as luzes quando ainda vagueavas pelos corredores, sem se aperceberem que por ali continuavas. Sem darem conta. Num momento tudo é a cores, viras a esquina, e de repente faz-se noite. Não há ruído, não há vozes, não há caras, não há horas. Dás por ti contigo, e perguntas-te para onde vais agora. Não encontras o interruptor, não tens nenhum braço em que te apoiar que te guie à saída, nem nenhuma escada para subir à janela mais alta donde possas ver a lua. Para que deixe de ser noite, sem que no fundo o deixe de ser. Só porque já consegues ver. Acordas um dia e estás só. Só com as tuas decisões de pessoa crescida, só com as tuas opções de menina pequena. Só, só, só... É agora que se complica. É agora que tens de ser tu. Ser a pessoa que apregoas ser, ser a pessoa que os outros reconhecem como real, ser a pessoa que faz parte deste mundo e que conta como uma peça mais no jogo que se criou. É neste momento que tudo se decide. Se não conseguires ser tu contigo, apaga a luz e recolhe-te num canto. Espera que o dia volte, correndo o risco do eclipse ser eterno e te perderes (para sempre). Mas se conseguires ser tu contigo, serás quem decide quando abrir os olhos e voltar a ver. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser noite. Porque tu contigo, na reconciliação do que foste outrora, és estrada e és caminho e és ponte que atravessa a dor. Que faz chegar onde um dia passaste e achaste não ser para ti. Agora, agora que és tu contigo, mereces ser estupidamente inteira. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser menos.