quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sem medos.

Como se reaprende o silêncio…?
Como voltamos a estar apenas connosco? Como se volta à estrada principal, depois de tantos anos por atalhos já traçados, já tão fáceis de seguir? Como se volta a ser um, depois de se ser muitos mais? Como se volta a acordar sozinho, e a adormecer apenas consigo?

Como se reaprende a solidão…?
Reaprende-se recomeçando. Do início. Sempre.
Reaprende-se na coragem de sermos inteiros, sem necessidade de só existirmos nos outros. Porque antes de sermos nós com eles, somos nós connosco. E tantas vezes nos esquecemos disso… Reaprende-se uma nova vida sem deixar a antiga. Aquela que nos formou, nos toldou, nos dobrou, nos marcou, nos bateu, nos fez chorar, nos fez sorrir, nos trouxe os piores e os melhores momentos possíveis. Aquela que nos fez crescer.
Nunca se abandona totalmente o que ficou. Porque somos feitos dessas poeiras. Somos carne dessas vivências. Somos pó na roupa e no corpo e na alma, dos anos que (nos) passaram. Fechamos a porta atrás de nós, e deixamos apenas o que nos faz mal. Porque tudo o resto, tudo o que já é parte de nós, fica para sempre por dentro. Nunca perdemos o que criámos, o que fizemos nascer, o que nos saiu do coração e do peito agora rasgado. Levamos connosco quem nos é tudo. Quem nos ficará para sempre, fechemos as portas que fecharmos atrás de nós.

Ninguém nos disse que os sonhos mudavam, ninguém nos avisou que os “para sempre” são parte do conto de fadas, ninguém nos preparou para não sermos felizes à primeira e nem (sequer) à segunda. Ninguém nos precaveu que pode haver a terceira, e que isso não irá nunca deitar por terra tudo o que (já) ficou. Ninguém nos contou que os filmes só existem no ecrã, e que na vida real, é raro acertar-se quando e como se quer. E ainda bem. Ainda bem que ninguém nos cortou os desejos logo de início. Porque assim conseguimos ser inconscientemente felizes e acreditar por momentos que a eternidade podia existir tal como a imaginávamos. Ainda bem que nos deixaram viver e partilhar sorrisos. Temos de ser nós a perceber quando esse sonho termina para dar lugar a outros. Sem ajudas, sem tempos extra, sem minutos de desconto, sem pausas. Perceber, agir, procurar, ser. Ter a força de mil homens para o que o amanhã nos reserva. E ser enorme ao fechar a porta. Para que, mesmo com o peito apertado e perdido no turbilhão, saibamos com todas as certezas, aquelas que só existem de vez em quando, que o importante vai sempre connosco. Nunca se perde.

Mudam as rotinas, mudam as vivências, mudam os cenários. Muda a casa, mudam as paredes, mudam os tectos e as luzes da rua. Mudamos nós com tudo. Não muda o nosso amor pelo que é (verdadeiramente) nosso. E pelo que nos terá (genuinamente) para sempre.

Como se reaprende o silêncio…? 
Sem medos, de cabeça erguida, e com a coragem de quem ousa ser feliz nem que por um momento, antes ainda que a vida termine e não exista nada para ter pena de ser tão cedo. Mesmo que aconteça daqui a cem anos… Se reaprendermos o silêncio, se formos nós connosco e com quem queremos bem, chegaremos ao fim sempre com pena de não haver mais tempo. Mas se nos deixarmos consumir pelo que ficou atrás das portas, o fim parecerá quase sempre tarde demais, para uma vida tão (ridiculamente, pensaremos então) pela metade.


O silêncio reaprende-se sozinho por fora e pleno por dentro. 
Porque mais importante que as feridas de quem fecha etapas que pensava durarem até ao fim, são os sorrisos de plenitude de quem abre as portas que estão em frente. Porque uma delas, a mais bonita, a que custar mais a abrir, a que tiver por cima o número com que nos identificamos, aquela onde soar a nossa música, e onde conseguirmos sentir os cheiros que nos fazem sentir quentes por dentro, aquela onde saberemos de imediato um dia vir a rir e a sentirmo-nos nós novamente, uma delas (essa mesmo…) trar-nos-á novamente aquela confusão barulhenta e tremendamente encantadora, a que chamamos Casa. E aí, estaremos de volta. Prontos para voltar a acreditar nos “para sempre”. Eternamente até durar.

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