quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Tu (contigo)

No fundo, nunca te apercebes quando aconteceu. Quando foi aquele preciso momento em que tudo se deu. Acordas um dia e já não estás no sítio habitual. Não percebes como foi possível ires ali parar, se no fundo nunca fizeste nenhum desvio do caminho que devias seguir. Mas abres os olhos, e estás lá. Num lugar diferente, sem rede por baixo. Olhas em volta e já não está ninguém. Como se tivessem apagado as luzes quando ainda vagueavas pelos corredores, sem se aperceberem que por ali continuavas. Sem darem conta. Num momento tudo é a cores, viras a esquina, e de repente faz-se noite. Não há ruído, não há vozes, não há caras, não há horas. Dás por ti contigo, e perguntas-te para onde vais agora. Não encontras o interruptor, não tens nenhum braço em que te apoiar que te guie à saída, nem nenhuma escada para subir à janela mais alta donde possas ver a lua. Para que deixe de ser noite, sem que no fundo o deixe de ser. Só porque já consegues ver. Acordas um dia e estás só. Só com as tuas decisões de pessoa crescida, só com as tuas opções de menina pequena. Só, só, só... É agora que se complica. É agora que tens de ser tu. Ser a pessoa que apregoas ser, ser a pessoa que os outros reconhecem como real, ser a pessoa que faz parte deste mundo e que conta como uma peça mais no jogo que se criou. É neste momento que tudo se decide. Se não conseguires ser tu contigo, apaga a luz e recolhe-te num canto. Espera que o dia volte, correndo o risco do eclipse ser eterno e te perderes (para sempre). Mas se conseguires ser tu contigo, serás quem decide quando abrir os olhos e voltar a ver. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser noite. Porque tu contigo, na reconciliação do que foste outrora, és estrada e és caminho e és ponte que atravessa a dor. Que faz chegar onde um dia passaste e achaste não ser para ti. Agora, agora que és tu contigo, mereces ser estupidamente inteira. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser menos.

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