Saio de casa com a cara fria e as roupas que colam ao corpo e que pedem para não estar ali. Lá fora, um vento que corta no pescoço e nos lembra que os dias não são todos iguais, não são todos de chuva, não são todos quentes. Entro no carro sem saber bem que tirar primeiro, se a mala, se o casaco, se o semblante carregado, se o nariz franzido ou o gorro que esconde as orelhas. Decido tirar só a mala, o casaco e o gorro, afinal de contas, já assumi tudo o resto até ao final do dia, e quando assim é, não vale a pena lutar contra isso. Fecho a porta e por momentos deixo-me estar, como se ali regressasse a dias melhores, dias de palmo e meio em que tudo o que queriamos era um beijo na face que nos acompanhasse até à escola e umas meias bonitas que ao final do dia estariam rasgadas pela euforia das horas gastas. Deixo-me estar no cansaço dos dias de hoje, que nos apagam e nos amarrotam, desrespeitando o que pretendemos. Ligo o rádio porque assim torna-se mais fácil desviar pensamentos, porque as vozes e os sons nos puxam para fora de nós. E fora de nós deixamos de estar dentro, e ao deixar de estar dentro deixa de ser Inverno. Olho em frente, e vejo o casal de namorados que toma o café da manhã, ainda a fumegar. Fazem-se planos para um futuro que ficou por vir, constróem-se narrativas carregadas de quereres. Ao lado o velhote de expressão doce, cujas rugas na cara mostram uma vida que ainda persiste. Passa os olhos por quem passa, porque quem passa, como tudo o resto, não fica. A senhora impecavelmente vestida na outra mesa, sem qualquer pormenor descurado, desde a cor das vestes, ao cabelo, passando pelos ornamentos que orgulhosamente carrega. Como uma capa do que foi outrora e que não quer perder hoje. O brio que trouxe consigo e que se recusa a largar. Vejo através do vidro embaciado todas as vidas que há lá fora, e para cada uma contruo a minha história do que serão as suas "estórias". Crio personagens que provavelmente existem longe do que realmente são. Gosto de imaginar os dias por trás dos gestos, do rubor da pele, do brilho do olhar ou da expressão vazia. Com tudo isto distraio-me e não reparo que já passou muito tempo. Tenho de me pôr a caminho, foi para isso que hoje acordei. Decido fazer uma troca e colocar o gorro. Deste modo, posso tirar o semblante carregado e deixá-lo ali mesmo à porta de casa. Pode ser que quando volte o frio seja tanto que o tenha afastado. Afinal de contas, ao abrir a porta de casa, no meu regresso ao que sou eu, as personagens da minha história estarão lá, exactamente como as sonhei.
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