sexta-feira, 25 de abril de 2014

Quando anoitece

É quando anoitece que procuramos respostas para as perguntas que não temos. Somos mais pequenos, estamos mais quietos, mais calados, mais em nós. Ouvimos sons que durante o dia nos parecem diferentes. Sentimos brisas que durante o dia não aparecem. Percebemos cheiros de rio que se confundem com odores de campo, de rua, com vidas que caminham nos passeios. É quando anoitece que desejamos mais o que durante o dia adormecemos em nós. Porque (dizem) que de dia, não dá jeito sonhar. Ousa interferir com a vida que nos fizemos calhar, faz-nos pôr em causa as horas iguais. E é quando anoitece que sentimos mais falta. Que queremos mais estar. Que nos apetece mais traçar percursos. Que sentimos com mais força que o que procuramos, pode ser nosso. É quando anoitece que não queremos estar sós. Ao estarmos sós, os sonhos que temos em nós perdem-se inevitavelmente no nosso silêncio. Camuflados. Esfumados. É quando anoitece que queremos revelar tudo o que nos deixa com sorrisos patetas no rosto e borboletas no estômago. É quando anoitece que perdemos os receios. Que o (nosso) mundo fica mais claro apesar da escuridão que insiste em fazer-se mostrar lá fora. É quando anoitece que nos resolvemos. E é na noite que nos entregamos. Que voltamos ao que somos. E que ansiamos que a manhã chegue depressa. Para podermos acordar, e ter a certeza de que a noite passada, de facto, aconteceu. E que os ideais da noite são agora os nossos caminhos. Do dia.

Sem comentários:

Enviar um comentário