sexta-feira, 25 de abril de 2014

Do (vulgo) amigo, qual mocho-galego

Sempre gostei de mochos. Têm um ar misterioso, olhos arregalados e estão associados desde sempre à sabedoria. Diz-se que são cegos à nascença, dotados de uma audição muito apurada, sendo também solitários e tímidos. No fundo, como alguns de nós. Mas de entre todos os mochos, de todo o mundo, há uma espécie que me é particularmente grata. Isto porque se assemelha bastante com o ser humano, numa ou várias das suas vertentes. Apresento-vos então o mocho-galego.


"O mocho-galego (Athene noctua) é uma espécie de ave estrigiforme pertencente à família Strigidae. É um animal de hábitos marcadamente nocturnos, embora, quando as condições o permitam, seja comum observá-lo durante o dia ou crepúsculo. De carácter oportunista, na dieta deste animal estritamente carnívoro (assim como todos os restantes mochos e corujas) figuram os mais variados tipos de presa: desde invertebrados terrestres, anfíbios, répteis, outras aves, e até mesmo animais atropelados em vias rodoviárias, de entre outros. É uma espécie sedentária, com preferência para zonas de planície e vegetação baixa, embora seja uma espécie com bastante polivalência em relação a este aspecto, sendo observada nos mais diversos tipos de habitat, incluindo zonas urbanas" (fonte Wikipédia).

Venho então falar-vos, com base nesta descrição do nosso querido mocho-galego, de uma nova espécie, apelidada de "mochamigo-galego". O mochamigo-galego é aquele fiel companheiro de copos que achamos que depois de uma noite bem regada estará lá no outro dia para tomar o gurosan connosco. Mas não. O mochamigo-galego, tal como a espécie da qual advém, é um animal maioritariamente de hábitos nocturnos ou que apenas aparece durante o dia quando existe algo deveras importante para o fazer sair do ninho. Descobrimos então aos poucos e fruto das vicissitudes da vida que o que é importante para o mochamigo-galego, não vai de todo ao encontro do que é importante para nós. Para ele, o importante é a festa feita à noite, para nós, é o amparo do dia seguinte. Outra característica do mochamigo-galego é o facto de se tornar por vezes um ser oportunista, que procura a sua presa consoante o lado para onde acorda virado. Se abre os olhos virado para a esquerda, interessa o afecto e as memórias e o passado e o que está para vir, se acorda virado para a direita, tudo isso não passa de vislumbres do que já passou e que nenhuma importância parece ter nos dias de hoje. O que já lá vai foi apagado da memória do mochamigo-galego, e o que importa é a vulgaridade e a efemeridade das relações passageiras do presente, que deixam marcas tão profundas que com o mesmo fulgor com que começam, terminam. Esta espécie de mochamigo-galego é sedentária e quando sai fora do seu poiso, por vezes mal se deixa ver. Prefere o quentinho do ninho, sentindo-se no entanto bem em vários habitats. Desde que o mesmo esteja decorado à sua maneira, não restem dúvidas. O mochamigo-galego por vezes incorre na rebeldia de saltar da árvore e deixar-se ver, mas tal como aparece desaparece, deixando nos restantes espécimes uma sensação de vazio, e a estranha sensação de que aquele talvez possa não ser o seu mochamigo-galego, mas sim outro qualquer, que existe numa realidade paralela só sua, e que um dia se assemelhou ao mochamigo-galego que outrora num passado tão longo como recente, fez parte das suas vivências. 

Apesar desta espécie me ser particularmente grata face à sua semelhança com os nossos semelhantes (passo a redundância), creio que só teria a ganhar ao aproximar-se de novas espécies de mocho, que evoluiram fruto do correr dos tempos. Não quero que entre em extinção, mas sim que se sinta crescer. Por exemplo, temos o exemplo do mocho-dos-banhados, também conhecido como coruja-do-bornal. Este sobrevoa várias vezes os locais que sente pertencerem-lhe por afinidade, e acaba sempre por voltar aos mesmos. Espécie com valores em extinção, esta. Que apesar de distante, acaba sempre, independentemente das circunstâncias, por regressar onde está aquilo ou aqueles que lhe importam. E ainda dizem que os animais não têm sentimentos. Crie-se uma escola de mochos para amigos, e sou a primeira a colocar uma série de inscrições na mesma. Hoje mesmo.

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