O "amo-te" deveria pagar imposto quando utilizado indevidamente. Deveria ter uma espécie de alarme, que quando invocado incorrectamente, despoletasse uma sirene e uma voz ameaçadora que diria algo como "Utilizou a palavra amo-te levianamente. Por favor dirija-se ao guichet mais próximo, para que seja devidamente autuado pela sua acção". Quando temos 14 anos é muito simples dizer um "amo-te". Andamos no 8.º ano e encantamo-nos pelo rapaz do 9.º, moreno e de sorriso sincero, jeans rotos e ar rebelde, e que naquela altura nos parece perfeito. Por algum acaso, ele também nos acha piada. Começam as mãos dadas, os beijos atrás do pavilhão, os passeios de Casal Boss ou de DT, as idas ao café no final da tarde, e às tantas, sai a ambos um "amo-te". E aquele "amo-te", eu aceito. Porque é dos primeiros, porque é aquilo que para nós, na altura, dignifica aquilo que sentimos pelo nosso principe adolescente de mochila Monte Campo. Depois crescemos, e com o crescer, todo um novo mundo se abre à nossa frente. Andamos por vários caminhos, experienciamos vários amores, e percebemos cada vez mais que o "amo-te" se tornou banal, e que é dito por qualquer réstia de gostar. Por qualquer carícia. Por qualquer dia bom. Por qualquer pequeno sentir que acalenta a esperança de que aquele "amo-te" um dia faça sentido, e seja algo mais do que é naquele momento. Ao fim de poucos dias já há um "amo-te". E não pode haver. Lamento. O puro, o verdadeiro "amo-te", tem de ser vivido. Tem de passar por montanhas sinuosas, tem de passar por temporais, tem de passar por dias de sol firme, tem de passar por dias cinzentos, tem de passar por gargalhadas, por mágoas, por lágrimas, por abraços, por suspiros, por esperanças, por anseios, por quedas, por noites em silêncio e por noites iluminadas. O verdadeiro "amo-te" tem de vir das entranhas, e ser dito quando já explodir no peito e chegar a doer. O verdadeiro "amo-te" não é sussurrado ao ouvido depois de uma ida ao cinema. É gritado com toda a nossa pele, com todos os nossos ossos, com todo o nosso sangue. Ao ponto de nos deixar esgotados. Com o cansaço bom que só se consegue após dizermos em voz alta (que é quando as coisas se tornam reais) o que foi crescendo em nós. O verdadeiro "amo-te" não é o socialmente "correcto" e com prazo de validade. O verdadeiro "amo-te" é o que desafia os limites do simples gostar. O que só aparece quando já sentimos ser demasiado egoísta guardá-lo em nós. E quando o mundo nos parece (finalmente) infinitamente pequeno para o conter.
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