Eu hoje ía falar sobre uma doença que afecta grandemente algumas pessoas, e que dá pelo nome de calimeirice aguda, mas acho que não vale a pena dar-lhe tanta importância. Isto porque quem padece desse mal alimenta-se invariavelmente das conversas, das penas, das atitudes, dos lamentos dos outros. Ontem em conversa alguém dizia que a velocidade das baratas aumenta exponencialmente consoante aumenta o seu tamanho. Também os coitadinhos desta vida aumentam a sua condição e agigantam-se consoante maior seja o foco que se lhes coloque em cima. O segredo neste caso é não alimentar lamurias. Se ignorarmos, acabam por ir mirrando aos poucos. Que no fundo, é o que convém. Se dermos azo à sua pieguice infundamentada, então é vê-los crescer e ganhar asas. E quando um sofredor de calimeirice aguda cresce, é bom que nos afastemos. Porque vai rapidamente querer (a)pegar-se à nossa pele, qual osga carente em noite de Verão. E deixar marca. Aquela marca que o rastejante deixa, que é como que uma vermelhidão que dá comichão e incomoda. E coçamos e só agrava. É essa a marca que o doente quer deixar. Quer incomodar os outros com o seu sofrimento idealizado. Quer que os outros pensem nele quando estão plenos, e se sintam culpados por (pasme-se) estarem bem. É uma patologia complicada, pior ainda porque quem a tem, normalmente sabe que é portador. Não passa pela fase da negação, que é sempre a primeira desculpa que se dá a quem evita tratar-se. Os calimeros que se nos atravessam no percurso assumem a alto e bom som que têm vidas desgraçadas. Que tudo lhes cai em cima. Que só lhes acontecem coisas más. Que ninguém lhes liga. Que são ignorados. Colocam-se no pedestal da "poucochinhice". É cansativo quando por descuido os deixamos entrar e revolver-nos as entranhas. E é por isso que eu resolvi adquirir o antídoto. Aquele que me permite ser feliz sem culpas, aquele que me permite ter o proveito da fama alcançada pelo carimbo de mau feitio, aquele que me permite limpar dos ombros o peso de quem se acha o pintainho com a casca de ovo na cabeça. Alguém (com mais paciência que eu) que um dia lhes faça ver que se tirarem a casca e se deixarem de lamentar, passam a ser pessoas comuns, com vidas passíveis de ser não menos do que extraordinárias. E na volta, começam a ser felizes. Ah, mas espera. Isso não dava jeito nenhum, não era?
Sem comentários:
Enviar um comentário