sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sonhos embargados

A palavra "embargado" faz-me sempre lembrar o construtor que iniciou a obra do condomínio, e que por falta de liquidez teve de parar a meio. O "embargar" para mim é o parar devido a obstáculos, visíveis ou não. É o não conseguir concluir um projecto, por falta de qualquer coisa. É o colocar o que se deseja na gaveta, e esperar. Esperar pelo momento em que se possa voltar a abrir a mesma, esperar pela altura em que tudo esteja alinhado para que os desejos se cumpram, esperar que o amor ganhe estatuto em dias, meses, anos, esperar que o vil metal aumente, esperar que alguém se chegue à frente, esperar que hajam dias suficientes, esperar que haja sol, esperar que não chova, esperar que não se acabe a fonte de abundância, esperar que o relógio avance, esperar que a vida esteja perfeita. Até lá, ficam os sonhos embargados. Ficam os sonhos presos a motivos e a condições que parecem (profundamente) essenciais. Ficam os desejos escondidos à espera que a gota de água perfeita caia no sulco perfeito do chão e crie a poça perfeita. Esperar, esperar, esperar. O que acontece não raras vezes com as obras embargadas é que acabam por assumir o estatuto de devolutas. Porque o construtor se esqueceu delas, porque criou novos desejos (mais pequenos e reais), porque edificou muros em vez de casas, porque as largou sem regressar. Esquecidas. O mesmo acontece com os sonhos que não realizamos. Ficam por ali, num baú da nossa memória, como saudosos episódios do que poderia vir a ser. Ficando sempre o "e se". E se não fosse necessário picar todos os pontos para se poder avançar? E se não fosse necessário alcançar a condição definida pelas marionetas do costume para podermos criar a nossa obra? Os sonhos embargados não são mais do que pequenos rasgões nas folhas do nosso livro. Em que por sua causa, acabamos por saltar dois parágrafos, mas como percebemos na mesma a história, nem achamos essa falta significativa. Idiotas que somos. E tão mais felizes seriamos se arriscassemos ler a história por completo. Veriamos por certo que os pormenores arrancados em palavras eram, no fundo, o que daria todo o sentido ao nosso conto.

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