segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Hoje

Ela não contava que ele não soubesse o que era uma oitava, e ele não contava que ela não gostasse de saltar dunas na calada da noite. Ainda assim, tontos de si, imbecis de ideias e de vendas nos olhos, arriscaram ver o que se passava mais à frente, sempre na expectativa do desmoronar óbvio que se adivinhava desde o início. Cada dia era o escolhido para o final, para o virar de costas, para o adeus com o desapego próprio do que nunca existiu. No entanto, cada dia, e ao fazer o balanço próprio dos minutos de pausa, constatavam que a tarefa tinha sido lamentavelmente, desgraçadamente e vergonhosamente falhada. Mais uma vez, ainda não era altura do "vou ali e não volto". Os dias passaram. Os meses e os anos e a vida com eles. E hoje, ele ainda não sabe o que é uma oitava e ela ainda não gosta de saltar dunas na calada da noite. Continuam à espera do dia do suspirar de alívio e do confirmar das suspeitas que se assomavam desde o primeiro momento, só para puderem afirmar de nariz empinado e dedo em riste: "Nós sabíamos!". Mas até lá, tencionam continuar a ser estupidamente felizes, praguejando alto pela sua incapacidade de darem cabo de tudo. Parece que o que não está talhado para ser custa muito mais a partir do que tudo o que nasce já com as arestas limadas. O que vale é que são ambos de uma teimosia atroz, e não há um dia em que ao acordar não se olhem com o embevecimento que carrega quem gosta com "A" grande, se abracem com a pele inteira, sorriam um para o outro, e pensem em voz alta e decidida: "Amor, é hoje".

De antemão

Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estaria amena, não correria brisa alguma, e a lua estaria fora do seu campo de visão. Iria sentar-se lá fora a ler um livro, e fingiria que ainda se lembrava em que ponto da história tinha descansado a última vez. O livro era sempre o mesmo há muito tempo. Abriria na página que a sorte ditasse, passaria os olhos pelas primeiras dez frases (doze, se o dia tivesse sido atípico), e a partir daí, seguir-se-ia a rotina dos pensamentos de cor. Cinzentos se as horas tivessem custado a passar por definhamento de um peito sozinho, azuis claros se as horas lhe tivessem cravado olhares na lembrança de dias melhores, e brancos se as horas tivessem sido pautadas pela calma de quem (já) teve e aguarda o que se segue. No fundo, o seu anseio pelo final do dia justificava-se tão somente pela satisfação da curiosidade que a acompanha sempre nas horas que o precediam, de descobrir qual a cor dessa noite.
Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estava amena, não corria brisa alguma, e a lua estava fora do seu campo de visão. Sentou-se lá fora, abriu o livro numa das páginas amarelecidas pelo tempo, e passou os olhos pelas primeiras duas frases. Percebeu que as palavras (dessa vez) não lhe eram familiares. Não falavam de quereres embargados, nem de esperas infinitamente prolongadas por dias diferentes. Não falavam de desejos escondidos atrás das costas, nem de passeios que nunca chegariam a acontecer. Não falavam de abraços por dar nem de sorrisos por rasgar. Não falavam de sonhos ridículos e gastos de tanto serem elaborados, pormenorizados, rasurados e rescritos. Não falavam de vidas incompletas nem de histórias a meio. 
Eram palavras que não reconhecia por não lhe fazerem parte dos dias.
Levantou-se e posou o livro na mesa. Reparou que a noite (dessa vez) estava mais fria, que corria um ar que sabia a Invernos quentes por dentro. Ergueu os olhos e (dessa vez) a lua estava mesmo à sua frente. Perfeita, com todas as suas sombras desenhadas a carvão. Voltou a abrir as páginas, e (dessa vez) continuou a ler.

Nessa noite, deixou finalmente de saber de antemão como iriam terminar (todos) os seus dias.
E (dessa vez), adormeceu na certeza de que o acordar seria infinitamente melhor.

Meio.

Vejo de fora da redoma em que a vida acontece que as meias-felicidades continuam a ser tão válidas que começam aos poucos a ganhar espaço e a serem consideradas verdadeiras. As meias-vidas. Os meios-sorrisos. Os meios-abraços. As meias-palavras. Os meios-amigos. Os meios-amores. Querer pela metade é cada vez mais estandarte da maioria, e isso entristece-me. Porque não me imagino a passar pelos dias com menos do que tudo. Ficar pela metade é assumir que não se é inteiro. É o comodismo da vida já escrita, é o não desviar de um caminho inconscientemente (e inconsequentemente) traçado. Como poderemos existir em pleno, se não pretendermos tudo aquilo a que temos direito? As meias vidas levarão sempre a cordiais estender de mão, a “bons dias” forçados e sussurrados entredentes, a copos contidos tomados em alturas marcadas, a sorrisos de canto de boca, a noites programadas e sem falhas, a dias menos tumultuosos, a amizades que sobrevivem só até onde a vista alcança, a amores serenos que durarão uma vida mas que mais não serão que companhia. Mas as vidas por inteiro… Ah, as vidas por inteiro… Essas, levarão a abraços apertados dados quando menos se espera a quem queremos bem, a cumprimentos sinceros na rua a um estranho que passa naquele momento (também) a ser nosso, a jantares regados a tinto tirados da cartola no último segundo só porque sim e (inevitavelmente) por nada, a risos incontroláveis que entorpecem por fora e engrandecem por dentro, a noites sem rumo de estrelas por cima e peito carregado de histórias e alegrias, a dias (por certo) mais tumultuosos mas tão (mas tão) mais deliciosos, a amizades que vão muito além das palavras prometidas e que merecem cada letra que carregam, a amores imprevistos e impossíveis que se consolidam porque o corpo e o coração e cada parte do ser não pode sequer imaginar outra possibilidade que não essa. Amores que como diz Vinicius, “serão eternos enquanto durem”. Os únicos (no fundo) de que vale a pena falar. Entristece-me ver que se vive pela metade. Eu, na minha ingenuidade de menina-mulher, continuarei cada dia a praticar a inteireza dos meus. Ou me dou para além de mim, ou nada valerá a pena. E isso seria (sem qualquer dúvida) a maior tristeza de todas. Porque não há maior viver que o que nos arrebata e deita ao chão e nos tolda os sentidos, mostrando-nos todos os dias que somos capazes de (só por acaso) um dia vir a ser felizes.

...

Cobra-se o tempo, contabilizam-se as palavras, riscam-se as atitudes, e saldam-se os abraços, num jogo do quem tem mais. Exibe-se o estandarte de quem é mais amigo, de quem conta mais situações, de quem faz mais planos, de quem liga mais vezes, de quem sabe mais do que o outro disse, só porque sim. Vangloriam-se os abutres do alto da (sua) falta afeição, à espera que o outro caia para o poderem chorar. Para levaram a palmadinha nas costas e serem visto com o pobre que ficou sem amparo. E passado o tempo que se julga ser socialmente necessário, volta a crescer o bico, voltam a despontar as asas, e volta a ser traçado o plano de combate para aterrar sobre o objecto desejado. Deixam de andar às voltas como dantes, pois tal já não faz sentido. Agora que já ninguém suspeita, agora que já se lacrimejou, agora que já se inventou, agora que já se fingiu sofrer, agora é a altura certa. Cai o pano e ninguém percebe, porque os verdadeiros estão vazios, estão recolhidos, estão feridos, estão cegos e escondidos no escuro do seu sofrimento, e não sabem quando retornar à luz. O único problema deste plano é quando a peça tem uma continuação, e não finda com as linhas que se esperava. O pior é quando o herói volta para a sequela, e trás consigo os braços direitos colados ao ser. Nessa altura o abutre cai por terra, faminto na sua vontade de tudo ter. Morre o abutre de frustração. Definha o abutre de podridão. Ficam apenas os pássaros brancos que trazem o sol, os que se deixam poisar no ombro só porque sim, porque gostam de estar por ali, porque gostam da companhia, porque gostam do afago. Esses não voam para longe quando o céu escurece. Ficam presos onde vale a pena, não por cobiça, mas por uma questão de renascer a cada respirar junto. Sem cobranças, sem contabilizações, sem atitudes encenadas, sem palavras retiradas do livro do “faz assim que vais ver que resulta”. Às vezes as pessoas esquecem-se que quando o sentir é verdadeiro não precisa de ser relembrado constantemente em momentos que passaram, alguns só para preencher os dias. Às vezes as pessoas esquecem-se que ao quererem inventar algo na sua história de fadas, tal aparece como absolutamente disparatado na realidade dos que vivem do outro lado da linha. Esses (nós) somos reis das nossas certezas, e olhamos com altivez todo o desespero do outro lado, por uns pedacinhos de tão pouco que durarão apenas dias. Quando o que importa realmente não é (nunca é!) dado na mão, é impresso na pele. E dura nunca menos que uma vida.

Ao São (Pedro)

São, 
Estava a tentar evitar ter esta conversa, porque da última vez o cenário não foi bonito. Não, não... Mas pronto, já passou. E perdoei-te. Esqueci o passado e os dias turtuosos que me fizeste viver. O meu coraçãozinho acalmou a mágoa, ...e estava agora pronto para nele te voltar a acolher. Estava, São. Passado, ouviste?! E não me venhas pedir clemência com esses olhinhos de Bambi, que comigo não resulta. Tens noção do que me tens feito?!! Tens noção que tenho em mim a sensação de que há 5 meses seguidos que não pára de chover?!!! Que é isto, pah?!!!! A minha roupa de Inverno já olha para mim de lado, os meus pés já não querem botas, estou farta de escorregar nas calçadas encharcadas, cansada de correr para o carro para não levar dez banhos por dia, já não aguento mais acordar e só ver cinzento à volta, e a minha cara está tão pálida que se não me ponho a pau, serei a protagonista da sequela da Família Addams. As pessoas passeiam-se tristes pelas ruas, São.. Já nem abrem os guarda-chuva de tanto desalento que têm no peito, já nem se incomodam em procurar um sítio para se abrigarem. Não chega já o estado do país, ainda temos de levar com água na real tromba todos os dias?!!! Já para não falar das trovoadas, que ou tu tens andado a dar no feijão como se não houvesse amanhã, ou então queres só assim de repente acabar com o Mundo. Sabes bem que moro perto da 25 de Abril, e já vi essa menina a tremer muito menos com as tuas investidas. Que se passa, São...? Não te reconheço... Tu que és menino para uma mini gelada acompanhada de uma bela caracolada junto à praia (o que tu gostas de molhar o pãozinho no molho, que eu sei). Tu que me ligas no Verão só para saber se a água do mar estava quentinha (e se usei aquele bikini que me ofereceste nos anos). Tu que és um festivaleiro do pior, e que gostas de ir de calção e tshirt para as arenas empoeiradas recordar os teus tempos no ano 20 d.C... Não percebo, a sério que não percebo. Portugal não aguenta mais humidade (já dizia a outra senhora que o problema é, de facto, da humidade). Sentimo-nos neste momento panos empapados, São. Isso mesmo que leste. Panos. Empapados. Dá para fechar a torneira e mandar vir o sol? Bolas, pah... Não te peço tanto assim. Aumenta a temperatura que pode ser que eu aceite jantar contigo. Uma shushizada daquelas à antiga. Que dizes, uhm...? Mas aviso-te já que é a última vez, São. A última. Não estou para isto. Vá, 'cá um abracinho. 
Beijos da sempre tua, Ma'tita.

"Estórias"

Ela gostava de fazer teatro. Gostava de ir ao ballet. Gostava de ir sempre aos mesmos restaurantes. Gostava de acampar. Gostava de de comer tremoços. Gostava da Primavera. Gostava de beber gin. Sonhava com uma casa no último andar do edifício mais alto da cidade. Ele gostava de ler. Gostava de jogar futebol. Gostava de experimentar bares diferentes. Gostava de ficar em hotéis. Gostava de comer amendoins salgados. Gostava do Outono. Gostava de beber café. Sonhava em ter uma caravana que lhe permitisse não ter morada certa. Ela era desastrada e ria alto. Ele era metódico e de uma simpatia discreta. Ela corria sempre para o lado do sol. Ele ficava sempre na sombra, onde estava mais fresco. Um dia ela encontrou-o. Um dia ele não a deixou escapar. Ela e ele, cresceram para o mesmo lado, até pararem, por imposição, de o fazer. Passado anos perderam-se um do outro no meio da multidão quando ela decidiu que não queria alguém que não gostasse dos mesmos filmes de domingo à tarde, e ele abdicou de ter alguém ao lado que não gostasse do cheiro da relva acabada de cortar. Ela passou a viver só, no seu mundo sonhado. Ele passou a estar sozinho, rodeado de tudo o que idealizou. Agora ela vai ler para a praia e ele vai viajar. Agora ela dorme tarde e ele acorda cedo. Agora ela vai tomar o pequeno-almoço na esplanada e ele vai ao sábado de manhã comprar o jornal. Agora ela canta no banho, e ele aprendeu a tocar piano. Um dia, ela sai de casa e vai até ao parque. Um dia, ele sai de casa e vai até ao parque. Um dia, sentam-se no parque lado a lado. Um dia, perdem-se nas horas com o cair da tarde. Um dia, faz-se noite. Um dia, percebem que o açúcar que ela coloca no chá é o mesmo que ele gosta de ver polvilhado no pão de Deus. Percebem que o chapéu dela fica bem no cabelo desalinhado dele. Que os braços dela encaixam nas costas dele. Um dia, percebem-se. E os dias deixam de ser linhas, e passam a ser "estórias".

Carruagem

O cheiro a quente da carruagem do metro estava a deixá-lo mal disposto. Misturava-se com o cheiro das pessoas que apressadas entravam e saiam sem que algumas soubessem sequer para onde ir. Ele assistia mudo a este teatro ensaiado e deixava-se ficar. Via as estações passarem através dos vidros baços, e os muros a desaparecerem por trás dele a velocidades compassadas. Gostava de viajar assim, pela sua (sempre) Lisboa. Às vezes passava os dias inteiros neste jogo que inventou para si. Via entrar a senhora com as crianças pela mão, a blusa bolsada pelo mais pequenino e o cabelo desalinhado pela azafama da manhã que para ela tinha começado de madrugada. O pseudo intelectual de esquerda que se senta com o livro gasto que comprou no alfarrabista do Chiado, e que já releu 5 vezes. No entanto, continua a parecer-lhe o melhor acessório para estas passagens rápidas pelo sub-mundo da cidade. Entram depois os namorados a caminho do liceu, mãos dadas e pensamento na festa que terá lugar no fim-de-semana. "Talvez aconteça", pensa ele. "Talvez seja o dia", suspira ela. Passa com lentidão o bancário, na sua camisa amarrotada e gravata cor de cortiça, oferecida por uma mulher que não a sua, de quem não gosta como a sua. Entra a esposa radiante, barriga de vários meses, e o marido, que a ampara. Sonham com o futuro que os espera, sorriem na sua inocência de quase-pais, de quem já passou por todas as outras etapas e a quem falta esta para serem completos. Senta-se o velhinho, impecável no seu fato engomado. Ainda hoje quando sai de casa se apronta como quem vai para um banquete, para um casamento, para um velório. O último foi o da sua companheira de vários anos, que o deixou assim. Perdido em si, perdido pelas ruas, onde a única certeza que continua a ter é a de que não pode sair de casa sem ter o cabelo bem penteado e a água de colónia no pescoço. Foi assim que tantos anos o fez, foi assim que durante anos saiu de peito inchado com a sua senhora à rua. De braço dado. Também ela altiva, irradiando uma calma feliz, com um brilho que não se vê nos jovens. O brilho de quem abraça a vida como se por si fosse criada. De braço dado. Sempre de braço dado. É esta a vida que ele procura quando entra todos os dias na carruagem. São estas as personagens que já conhece e que lhe fazem companhia, sem saberem. Aguenta os cheiros e os toques involuntários, aguenta o balançar enjoativo e os estofos rasgados e gastos. Aguenta o quente do ar e os gritos das crianças. Aguenta os segundos, os minutos, as horas. Aguenta-se a si. E regressa a casa com o coração cheio, muitas vezes quando é já o único passageiro e lhe pedem gentilmente que saia. Que vá. Roda a chave na porta, e enfrenta a escuridão apenas quebrada pelo único candeeiro da rua. Deita-se, e escolhe não ficar triste essa noite. Afinal, já é tarde, e falta muito pouco para que a carruagem volte a andar.

Quanto tempo?

É hora de almoço e os corredores estão apinhados. Gente que procura muito por pouco, que os tempos não estão para mais. Vejo-te chegar tímida na farda que te obrigam a usar todos os dias. A tua vaidade perde-se durante a manhã, quando tens de esconder as roupas que tanto estimas para colocar por cima a máscara que te identifica apenas como mais um nome. Mais um número. Mas um rosto. Chegas acanhada e apressada, já sem olhar para o que podes escolher. Também ali já te habituaste a optar sempre pelo mesmo. Pelo menos assim sabes sempre com o que contar. Fazes o teu pedido quase num sussuro e não levantas os olhos do tabuleiro sujo, onde já tantas mãos passaram. Sentas-te na mesa do canto, na cadeira mais ao fundo, perto da parede mais fria. O ritual de desembrulhar os talheres também já não te é estranho. Estranho seria algo ser diferente. Abres a revista que compras todos os dias, e onde lês as vidas dos outros, sonhas os vestidos das outras, imaginas os seus amores e as suas casas e invejas os sorrisos e o facilitismo que sempre consideraste como a excepção. Daí não o criticares. Também tu querias fazer parte desse mundo desenhado a lápis de carvão e pintado com aromas e cores que em ti não existem. São breves os minutos que dispensas para ti, mas suficientes para que sirvam como mais uma botija de oxigénio que te ajudará a aguentar o resto do dia. Limpas as mãos e a boca, bebes o café que te desperta e forças as pernas que não se querem erguer. De regresso ao teu corredor, olhas a bata branca que envergas e imaginas que tem um cartão preso que escreve "Dra." antes do teu nome em maiúsculas. A personagem que sonhavas ser e que ficou pelo caminho, perdida em tantas outras realizações que não escolheste para ti. Ficas triste por instantes, mas em seguida sacodes a cabeça e um sorriso invade-te o peito. Pensas no filho que tens em casa, pequenino na sua existência, e que todos os dias te recebe com o maior abraço do mundo. Teu bem maior. É fruto de ti e daquele que dizes ainda hoje ser o homem da tua vida. Um homem que te roubou aos planos que a vida tinha para ti e traçou os seus. Esqueceu-se apenas de perguntar se querias entrar na história, e se terias algum capítulo para acrescentar. Esqueceu-se apenas de te dizer que te amava, achavas tu que por descuido. Tarde percebeste que não to disse porque não estava delineado. Planeou não gostar mais de ti do que o necessário. E tu esqueceste-te de lhe dizer que isso era importante. Que fazia parte de ti, esse amor. Foi-se embora e ficaste para trás. Tu e os teus sonhos e os teus planos que não cabiam nos dele. Mas nessa tarde tomas uma decisão. A única em anos de solidão. Decides que amanhã não vais vestir a farda. Nem no outro dia nem no outro nem sequer no outro que se seguirá. Decides que não combina com os teus olhos, que o branco te empalidece e faz o teu cabelo parecer baço e sem vida. Decides que vais dobrá-la e esquecê-la em cima da cama. Que vais colocar um vestido bonito, soltar o cabelo ondulado que com tanto orgulho herdaste da tua avó e tão bem te cai nos ombros. Vais pintar ao de leve os olhos e colocar um baton que te abra o sorriso. Calçar uns sapatos bonitos que tinhas guardado para uma ocasião especial, pegar no teu pequeno, e abrir a porta de casa. Seguirás directamente para o parque, que nesta altura do ano está mais bonito que nunca. De um verde imaculado que com a humidade da noite parece brilhar ao sol da manhã. Vais respirar fundo, abraçar a tua vida, e sorrir. 
Há quanto tempo não sabias de ti?