Cobra-se o tempo, contabilizam-se as palavras,
riscam-se as atitudes, e saldam-se os abraços, num jogo do quem tem mais.
Exibe-se o estandarte de quem é mais amigo, de quem conta mais situações, de
quem faz mais planos, de quem liga mais vezes, de quem sabe mais do que o outro
disse, só porque sim. Vangloriam-se os abutres do alto da (sua) falta afeição,
à espera que o outro caia para o poderem chorar. Para levaram a palmadinha nas
costas e serem visto com o pobre que ficou sem
amparo. E passado o tempo que se julga ser socialmente necessário, volta a
crescer o bico, voltam a despontar as asas, e volta a ser traçado o plano de
combate para aterrar sobre o objecto desejado. Deixam de andar às voltas como
dantes, pois tal já não faz sentido. Agora que já ninguém suspeita, agora que
já se lacrimejou, agora que já se inventou, agora que já se fingiu sofrer,
agora é a altura certa. Cai o pano e ninguém percebe, porque os verdadeiros
estão vazios, estão recolhidos, estão feridos, estão cegos e escondidos no
escuro do seu sofrimento, e não sabem quando retornar à luz. O único problema
deste plano é quando a peça tem uma continuação, e não finda com as linhas que
se esperava. O pior é quando o herói volta para a sequela, e trás consigo os
braços direitos colados ao ser. Nessa altura o abutre cai por terra, faminto na
sua vontade de tudo ter. Morre o abutre de frustração. Definha o abutre de
podridão. Ficam apenas os pássaros brancos que trazem o sol, os que se deixam
poisar no ombro só porque sim, porque gostam de estar por ali, porque gostam da
companhia, porque gostam do afago. Esses não voam para longe quando o céu
escurece. Ficam presos onde vale a pena, não por cobiça, mas por uma questão de
renascer a cada respirar junto. Sem cobranças, sem contabilizações, sem
atitudes encenadas, sem palavras retiradas do livro do “faz assim que vais ver
que resulta”. Às vezes as pessoas esquecem-se que quando o sentir é verdadeiro
não precisa de ser relembrado constantemente em momentos que passaram, alguns
só para preencher os dias. Às vezes as pessoas esquecem-se que ao quererem
inventar algo na sua história de fadas, tal aparece como absolutamente
disparatado na realidade dos que vivem do outro lado da linha. Esses (nós)
somos reis das nossas certezas, e olhamos com altivez todo o desespero do outro
lado, por uns pedacinhos de tão pouco que durarão apenas dias. Quando o que
importa realmente não é (nunca é!) dado na mão, é impresso na pele. E dura
nunca menos que uma vida.
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