segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

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Cobra-se o tempo, contabilizam-se as palavras, riscam-se as atitudes, e saldam-se os abraços, num jogo do quem tem mais. Exibe-se o estandarte de quem é mais amigo, de quem conta mais situações, de quem faz mais planos, de quem liga mais vezes, de quem sabe mais do que o outro disse, só porque sim. Vangloriam-se os abutres do alto da (sua) falta afeição, à espera que o outro caia para o poderem chorar. Para levaram a palmadinha nas costas e serem visto com o pobre que ficou sem amparo. E passado o tempo que se julga ser socialmente necessário, volta a crescer o bico, voltam a despontar as asas, e volta a ser traçado o plano de combate para aterrar sobre o objecto desejado. Deixam de andar às voltas como dantes, pois tal já não faz sentido. Agora que já ninguém suspeita, agora que já se lacrimejou, agora que já se inventou, agora que já se fingiu sofrer, agora é a altura certa. Cai o pano e ninguém percebe, porque os verdadeiros estão vazios, estão recolhidos, estão feridos, estão cegos e escondidos no escuro do seu sofrimento, e não sabem quando retornar à luz. O único problema deste plano é quando a peça tem uma continuação, e não finda com as linhas que se esperava. O pior é quando o herói volta para a sequela, e trás consigo os braços direitos colados ao ser. Nessa altura o abutre cai por terra, faminto na sua vontade de tudo ter. Morre o abutre de frustração. Definha o abutre de podridão. Ficam apenas os pássaros brancos que trazem o sol, os que se deixam poisar no ombro só porque sim, porque gostam de estar por ali, porque gostam da companhia, porque gostam do afago. Esses não voam para longe quando o céu escurece. Ficam presos onde vale a pena, não por cobiça, mas por uma questão de renascer a cada respirar junto. Sem cobranças, sem contabilizações, sem atitudes encenadas, sem palavras retiradas do livro do “faz assim que vais ver que resulta”. Às vezes as pessoas esquecem-se que quando o sentir é verdadeiro não precisa de ser relembrado constantemente em momentos que passaram, alguns só para preencher os dias. Às vezes as pessoas esquecem-se que ao quererem inventar algo na sua história de fadas, tal aparece como absolutamente disparatado na realidade dos que vivem do outro lado da linha. Esses (nós) somos reis das nossas certezas, e olhamos com altivez todo o desespero do outro lado, por uns pedacinhos de tão pouco que durarão apenas dias. Quando o que importa realmente não é (nunca é!) dado na mão, é impresso na pele. E dura nunca menos que uma vida.

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