Sabia
de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estaria amena, não
correria brisa alguma, e a lua estaria fora do seu campo de visão. Iria
sentar-se lá fora a ler um livro, e fingiria que ainda se lembrava em que ponto
da história tinha descansado a última vez. O livro era sempre o mesmo há muito
tempo. Abriria na página que a sorte ditasse, passaria os olhos pelas primeiras
dez frases (doze, se o dia tivesse sido atípico), e a partir daí, seguir-se-ia
a rotina dos pensamentos de cor. Cinzentos se as
horas tivessem custado a passar por definhamento de um peito sozinho, azuis
claros se as horas lhe tivessem cravado olhares na lembrança de dias melhores,
e brancos se as horas tivessem sido pautadas pela calma de quem (já) teve e
aguarda o que se segue. No fundo, o seu anseio pelo final do dia justificava-se
tão somente pela satisfação da curiosidade que a acompanha sempre nas horas que
o precediam, de descobrir qual a cor dessa noite.
Sabia
de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estava amena, não
corria brisa alguma, e a lua estava fora do seu campo de visão. Sentou-se lá
fora, abriu o livro numa das páginas amarelecidas pelo tempo, e passou os olhos
pelas primeiras duas frases. Percebeu que as palavras (dessa vez) não lhe eram
familiares. Não falavam de quereres embargados, nem de esperas infinitamente
prolongadas por dias diferentes. Não falavam de desejos escondidos atrás das
costas, nem de passeios que nunca chegariam a acontecer. Não falavam de abraços
por dar nem de sorrisos por rasgar. Não falavam de sonhos ridículos e gastos de
tanto serem elaborados, pormenorizados, rasurados e rescritos. Não falavam de
vidas incompletas nem de histórias a meio.
Eram palavras que não reconhecia por não lhe fazerem parte dos dias.
Eram palavras que não reconhecia por não lhe fazerem parte dos dias.
Levantou-se e posou o livro na mesa. Reparou que a noite (dessa
vez) estava mais fria, que corria um ar que sabia a Invernos quentes por
dentro. Ergueu os olhos e (dessa vez) a lua estava mesmo à sua frente.
Perfeita, com todas as suas sombras desenhadas a carvão. Voltou a abrir as
páginas, e (dessa vez) continuou a ler.
Nessa noite, deixou finalmente de saber de antemão como iriam
terminar (todos) os seus dias.
E (dessa vez), adormeceu na certeza de que o acordar seria infinitamente melhor.
E (dessa vez), adormeceu na certeza de que o acordar seria infinitamente melhor.
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