segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

De antemão

Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estaria amena, não correria brisa alguma, e a lua estaria fora do seu campo de visão. Iria sentar-se lá fora a ler um livro, e fingiria que ainda se lembrava em que ponto da história tinha descansado a última vez. O livro era sempre o mesmo há muito tempo. Abriria na página que a sorte ditasse, passaria os olhos pelas primeiras dez frases (doze, se o dia tivesse sido atípico), e a partir daí, seguir-se-ia a rotina dos pensamentos de cor. Cinzentos se as horas tivessem custado a passar por definhamento de um peito sozinho, azuis claros se as horas lhe tivessem cravado olhares na lembrança de dias melhores, e brancos se as horas tivessem sido pautadas pela calma de quem (já) teve e aguarda o que se segue. No fundo, o seu anseio pelo final do dia justificava-se tão somente pela satisfação da curiosidade que a acompanha sempre nas horas que o precediam, de descobrir qual a cor dessa noite.
Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estava amena, não corria brisa alguma, e a lua estava fora do seu campo de visão. Sentou-se lá fora, abriu o livro numa das páginas amarelecidas pelo tempo, e passou os olhos pelas primeiras duas frases. Percebeu que as palavras (dessa vez) não lhe eram familiares. Não falavam de quereres embargados, nem de esperas infinitamente prolongadas por dias diferentes. Não falavam de desejos escondidos atrás das costas, nem de passeios que nunca chegariam a acontecer. Não falavam de abraços por dar nem de sorrisos por rasgar. Não falavam de sonhos ridículos e gastos de tanto serem elaborados, pormenorizados, rasurados e rescritos. Não falavam de vidas incompletas nem de histórias a meio. 
Eram palavras que não reconhecia por não lhe fazerem parte dos dias.
Levantou-se e posou o livro na mesa. Reparou que a noite (dessa vez) estava mais fria, que corria um ar que sabia a Invernos quentes por dentro. Ergueu os olhos e (dessa vez) a lua estava mesmo à sua frente. Perfeita, com todas as suas sombras desenhadas a carvão. Voltou a abrir as páginas, e (dessa vez) continuou a ler.

Nessa noite, deixou finalmente de saber de antemão como iriam terminar (todos) os seus dias.
E (dessa vez), adormeceu na certeza de que o acordar seria infinitamente melhor.

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