segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
"Estórias"
Ela gostava de fazer teatro. Gostava de ir ao
ballet. Gostava de ir sempre aos mesmos restaurantes. Gostava de acampar.
Gostava de de comer tremoços. Gostava da Primavera. Gostava de beber gin.
Sonhava com uma casa no último andar do edifício mais alto da cidade. Ele
gostava de ler. Gostava de jogar futebol. Gostava de experimentar bares
diferentes. Gostava de ficar em hotéis. Gostava de comer amendoins salgados.
Gostava do Outono. Gostava de beber café. Sonhava em ter uma caravana que lhe permitisse não ter morada certa. Ela era
desastrada e ria alto. Ele era metódico e de uma simpatia discreta. Ela corria
sempre para o lado do sol. Ele ficava sempre na sombra, onde estava mais
fresco. Um dia ela encontrou-o. Um dia ele não a deixou escapar. Ela e ele,
cresceram para o mesmo lado, até pararem, por imposição, de o fazer. Passado
anos perderam-se um do outro no meio da multidão quando ela decidiu que não
queria alguém que não gostasse dos mesmos filmes de domingo à tarde, e ele
abdicou de ter alguém ao lado que não gostasse do cheiro da relva acabada de
cortar. Ela passou a viver só, no seu mundo sonhado. Ele passou a estar
sozinho, rodeado de tudo o que idealizou. Agora ela vai ler para a praia e ele
vai viajar. Agora ela dorme tarde e ele acorda cedo. Agora ela vai tomar o
pequeno-almoço na esplanada e ele vai ao sábado de manhã comprar o jornal.
Agora ela canta no banho, e ele aprendeu a tocar piano. Um dia, ela sai de casa
e vai até ao parque. Um dia, ele sai de casa e vai até ao parque. Um dia,
sentam-se no parque lado a lado. Um dia, perdem-se nas horas com o cair da
tarde. Um dia, faz-se noite. Um dia, percebem que o açúcar que ela coloca no
chá é o mesmo que ele gosta de ver polvilhado no pão de Deus. Percebem que o
chapéu dela fica bem no cabelo desalinhado dele. Que os braços dela encaixam
nas costas dele. Um dia, percebem-se. E os dias deixam de ser linhas, e passam
a ser "estórias".
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