O cheiro a quente da carruagem do metro estava
a deixá-lo mal disposto. Misturava-se com o cheiro das pessoas que apressadas
entravam e saiam sem que algumas soubessem sequer para onde ir. Ele assistia
mudo a este teatro ensaiado e deixava-se ficar. Via as estações passarem
através dos vidros baços, e os muros a desaparecerem por trás dele a
velocidades compassadas. Gostava de viajar assim, pela sua (sempre) Lisboa. Às
vezes passava os dias inteiros neste jogo que inventou para si. Via entrar a senhora com as crianças pela mão, a
blusa bolsada pelo mais pequenino e o cabelo desalinhado pela azafama da manhã
que para ela tinha começado de madrugada. O pseudo intelectual de esquerda que
se senta com o livro gasto que comprou no alfarrabista do Chiado, e que já
releu 5 vezes. No entanto, continua a parecer-lhe o melhor acessório para estas
passagens rápidas pelo sub-mundo da cidade. Entram depois os namorados a
caminho do liceu, mãos dadas e pensamento na festa que terá lugar no
fim-de-semana. "Talvez aconteça", pensa ele. "Talvez seja o
dia", suspira ela. Passa com lentidão o bancário, na sua camisa amarrotada
e gravata cor de cortiça, oferecida por uma mulher que não a sua, de quem não
gosta como a sua. Entra a esposa radiante, barriga de vários meses, e o marido,
que a ampara. Sonham com o futuro que os espera, sorriem na sua inocência de
quase-pais, de quem já passou por todas as outras etapas e a quem falta esta
para serem completos. Senta-se o velhinho, impecável no seu fato engomado.
Ainda hoje quando sai de casa se apronta como quem vai para um banquete, para
um casamento, para um velório. O último foi o da sua companheira de vários
anos, que o deixou assim. Perdido em si, perdido pelas ruas, onde a única
certeza que continua a ter é a de que não pode sair de casa sem ter o cabelo
bem penteado e a água de colónia no pescoço. Foi assim que tantos anos o fez,
foi assim que durante anos saiu de peito inchado com a sua senhora à rua. De
braço dado. Também ela altiva, irradiando uma calma feliz, com um brilho que
não se vê nos jovens. O brilho de quem abraça a vida como se por si fosse
criada. De braço dado. Sempre de braço dado. É esta a vida que ele procura
quando entra todos os dias na carruagem. São estas as personagens que já
conhece e que lhe fazem companhia, sem saberem. Aguenta os cheiros e os toques
involuntários, aguenta o balançar enjoativo e os estofos rasgados e gastos.
Aguenta o quente do ar e os gritos das crianças. Aguenta os segundos, os
minutos, as horas. Aguenta-se a si. E regressa a casa com o coração cheio,
muitas vezes quando é já o único passageiro e lhe pedem gentilmente que saia.
Que vá. Roda a chave na porta, e enfrenta a escuridão apenas quebrada pelo único
candeeiro da rua. Deita-se, e escolhe não ficar triste essa noite. Afinal, já é
tarde, e falta muito pouco para que a carruagem volte a andar.
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