segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Quanto tempo?

É hora de almoço e os corredores estão apinhados. Gente que procura muito por pouco, que os tempos não estão para mais. Vejo-te chegar tímida na farda que te obrigam a usar todos os dias. A tua vaidade perde-se durante a manhã, quando tens de esconder as roupas que tanto estimas para colocar por cima a máscara que te identifica apenas como mais um nome. Mais um número. Mas um rosto. Chegas acanhada e apressada, já sem olhar para o que podes escolher. Também ali já te habituaste a optar sempre pelo mesmo. Pelo menos assim sabes sempre com o que contar. Fazes o teu pedido quase num sussuro e não levantas os olhos do tabuleiro sujo, onde já tantas mãos passaram. Sentas-te na mesa do canto, na cadeira mais ao fundo, perto da parede mais fria. O ritual de desembrulhar os talheres também já não te é estranho. Estranho seria algo ser diferente. Abres a revista que compras todos os dias, e onde lês as vidas dos outros, sonhas os vestidos das outras, imaginas os seus amores e as suas casas e invejas os sorrisos e o facilitismo que sempre consideraste como a excepção. Daí não o criticares. Também tu querias fazer parte desse mundo desenhado a lápis de carvão e pintado com aromas e cores que em ti não existem. São breves os minutos que dispensas para ti, mas suficientes para que sirvam como mais uma botija de oxigénio que te ajudará a aguentar o resto do dia. Limpas as mãos e a boca, bebes o café que te desperta e forças as pernas que não se querem erguer. De regresso ao teu corredor, olhas a bata branca que envergas e imaginas que tem um cartão preso que escreve "Dra." antes do teu nome em maiúsculas. A personagem que sonhavas ser e que ficou pelo caminho, perdida em tantas outras realizações que não escolheste para ti. Ficas triste por instantes, mas em seguida sacodes a cabeça e um sorriso invade-te o peito. Pensas no filho que tens em casa, pequenino na sua existência, e que todos os dias te recebe com o maior abraço do mundo. Teu bem maior. É fruto de ti e daquele que dizes ainda hoje ser o homem da tua vida. Um homem que te roubou aos planos que a vida tinha para ti e traçou os seus. Esqueceu-se apenas de perguntar se querias entrar na história, e se terias algum capítulo para acrescentar. Esqueceu-se apenas de te dizer que te amava, achavas tu que por descuido. Tarde percebeste que não to disse porque não estava delineado. Planeou não gostar mais de ti do que o necessário. E tu esqueceste-te de lhe dizer que isso era importante. Que fazia parte de ti, esse amor. Foi-se embora e ficaste para trás. Tu e os teus sonhos e os teus planos que não cabiam nos dele. Mas nessa tarde tomas uma decisão. A única em anos de solidão. Decides que amanhã não vais vestir a farda. Nem no outro dia nem no outro nem sequer no outro que se seguirá. Decides que não combina com os teus olhos, que o branco te empalidece e faz o teu cabelo parecer baço e sem vida. Decides que vais dobrá-la e esquecê-la em cima da cama. Que vais colocar um vestido bonito, soltar o cabelo ondulado que com tanto orgulho herdaste da tua avó e tão bem te cai nos ombros. Vais pintar ao de leve os olhos e colocar um baton que te abra o sorriso. Calçar uns sapatos bonitos que tinhas guardado para uma ocasião especial, pegar no teu pequeno, e abrir a porta de casa. Seguirás directamente para o parque, que nesta altura do ano está mais bonito que nunca. De um verde imaculado que com a humidade da noite parece brilhar ao sol da manhã. Vais respirar fundo, abraçar a tua vida, e sorrir. 
Há quanto tempo não sabias de ti?

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