É hora de almoço e os corredores estão
apinhados. Gente que procura muito por pouco, que os tempos não estão para
mais. Vejo-te chegar tímida na farda que te obrigam a usar todos os dias. A tua
vaidade perde-se durante a manhã, quando tens de esconder as roupas que tanto
estimas para colocar por cima a máscara que te identifica apenas como mais um
nome. Mais um número. Mas um rosto. Chegas acanhada e apressada, já sem olhar
para o que podes escolher. Também ali já te habituaste a optar sempre pelo
mesmo. Pelo menos assim sabes sempre com o que contar. Fazes o teu pedido quase
num sussuro e não levantas os olhos do tabuleiro sujo, onde já tantas mãos
passaram. Sentas-te na mesa do canto, na cadeira mais ao fundo, perto da parede
mais fria. O ritual de desembrulhar os talheres também já não te é estranho.
Estranho seria algo ser diferente. Abres a revista que compras todos os dias, e
onde lês as vidas dos outros, sonhas os vestidos das outras, imaginas os seus
amores e as suas casas e invejas os sorrisos e o facilitismo que sempre
consideraste como a excepção. Daí não o criticares. Também tu querias fazer
parte desse mundo desenhado a lápis de carvão e pintado com aromas e cores que
em ti não existem. São breves os minutos que dispensas para ti, mas suficientes
para que sirvam como mais uma botija de oxigénio que te ajudará a aguentar o
resto do dia. Limpas as mãos e a boca, bebes o café que te desperta e forças as
pernas que não se querem erguer. De regresso ao teu corredor, olhas a bata
branca que envergas e imaginas que tem um cartão preso que escreve
"Dra." antes do teu nome em maiúsculas. A personagem que sonhavas ser
e que ficou pelo caminho, perdida em tantas outras realizações que não
escolheste para ti. Ficas triste por instantes, mas em seguida sacodes a cabeça
e um sorriso invade-te o peito. Pensas no filho que tens em casa, pequenino na
sua existência, e que todos os dias te recebe com o maior abraço do mundo. Teu
bem maior. É fruto de ti e daquele que dizes ainda hoje ser o homem da tua
vida. Um homem que te roubou aos planos que a vida tinha para ti e traçou os
seus. Esqueceu-se apenas de perguntar se querias entrar na história, e se
terias algum capítulo para acrescentar. Esqueceu-se apenas de te dizer que te
amava, achavas tu que por descuido. Tarde percebeste que não to disse porque
não estava delineado. Planeou não gostar mais de ti do que o necessário. E tu
esqueceste-te de lhe dizer que isso era importante. Que fazia parte de ti, esse
amor. Foi-se embora e ficaste para trás. Tu e os teus sonhos e os teus planos
que não cabiam nos dele. Mas nessa tarde tomas uma decisão. A única em anos de
solidão. Decides que amanhã não vais vestir a farda. Nem no outro dia nem no
outro nem sequer no outro que se seguirá. Decides que não combina com os teus
olhos, que o branco te empalidece e faz o teu cabelo parecer baço e sem vida.
Decides que vais dobrá-la e esquecê-la em cima da cama. Que vais colocar um
vestido bonito, soltar o cabelo ondulado que com tanto orgulho herdaste da tua
avó e tão bem te cai nos ombros. Vais pintar ao de leve os olhos e colocar um
baton que te abra o sorriso. Calçar uns sapatos bonitos que tinhas guardado
para uma ocasião especial, pegar no teu pequeno, e abrir a porta de casa.
Seguirás directamente para o parque, que nesta altura do ano está mais bonito
que nunca. De um verde imaculado que com a humidade da noite parece brilhar ao
sol da manhã. Vais respirar fundo, abraçar a tua vida, e sorrir.
Há quanto tempo não sabias de ti?
Há quanto tempo não sabias de ti?
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