segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Hoje

Ela não contava que ele não soubesse o que era uma oitava, e ele não contava que ela não gostasse de saltar dunas na calada da noite. Ainda assim, tontos de si, imbecis de ideias e de vendas nos olhos, arriscaram ver o que se passava mais à frente, sempre na expectativa do desmoronar óbvio que se adivinhava desde o início. Cada dia era o escolhido para o final, para o virar de costas, para o adeus com o desapego próprio do que nunca existiu. No entanto, cada dia, e ao fazer o balanço próprio dos minutos de pausa, constatavam que a tarefa tinha sido lamentavelmente, desgraçadamente e vergonhosamente falhada. Mais uma vez, ainda não era altura do "vou ali e não volto". Os dias passaram. Os meses e os anos e a vida com eles. E hoje, ele ainda não sabe o que é uma oitava e ela ainda não gosta de saltar dunas na calada da noite. Continuam à espera do dia do suspirar de alívio e do confirmar das suspeitas que se assomavam desde o primeiro momento, só para puderem afirmar de nariz empinado e dedo em riste: "Nós sabíamos!". Mas até lá, tencionam continuar a ser estupidamente felizes, praguejando alto pela sua incapacidade de darem cabo de tudo. Parece que o que não está talhado para ser custa muito mais a partir do que tudo o que nasce já com as arestas limadas. O que vale é que são ambos de uma teimosia atroz, e não há um dia em que ao acordar não se olhem com o embevecimento que carrega quem gosta com "A" grande, se abracem com a pele inteira, sorriam um para o outro, e pensem em voz alta e decidida: "Amor, é hoje".

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