Vejo de fora da redoma em que a vida acontece
que as meias-felicidades continuam a ser tão válidas que começam aos poucos a
ganhar espaço e a serem consideradas verdadeiras. As meias-vidas. Os
meios-sorrisos. Os meios-abraços. As meias-palavras. Os meios-amigos. Os
meios-amores. Querer pela metade é cada vez mais estandarte da maioria, e isso
entristece-me. Porque não me imagino a passar pelos dias com menos do que tudo.
Ficar pela metade é assumir que não se é inteiro. É o comodismo da vida já escrita, é o não desviar de um
caminho inconscientemente (e inconsequentemente) traçado. Como poderemos
existir em pleno, se não pretendermos tudo aquilo a que temos direito? As meias
vidas levarão sempre a cordiais estender de mão, a “bons dias” forçados e
sussurrados entredentes, a copos contidos tomados em alturas marcadas, a
sorrisos de canto de boca, a noites programadas e sem falhas, a dias menos
tumultuosos, a amizades que sobrevivem só até onde a vista alcança, a amores
serenos que durarão uma vida mas que mais não serão que companhia. Mas as vidas
por inteiro… Ah, as vidas por inteiro… Essas, levarão a abraços apertados dados
quando menos se espera a quem queremos bem, a cumprimentos sinceros na rua a um
estranho que passa naquele momento (também) a ser nosso, a jantares regados a
tinto tirados da cartola no último segundo só porque sim e (inevitavelmente)
por nada, a risos incontroláveis que entorpecem por fora e engrandecem por
dentro, a noites sem rumo de estrelas por cima e peito carregado de histórias e
alegrias, a dias (por certo) mais tumultuosos mas tão (mas tão) mais
deliciosos, a amizades que vão muito além das palavras prometidas e que merecem
cada letra que carregam, a amores imprevistos e impossíveis que se consolidam
porque o corpo e o coração e cada parte do ser não pode sequer imaginar outra
possibilidade que não essa. Amores que como diz Vinicius, “serão eternos
enquanto durem”. Os únicos (no fundo) de que vale a pena falar. Entristece-me
ver que se vive pela metade. Eu, na minha ingenuidade de menina-mulher,
continuarei cada dia a praticar a inteireza dos meus. Ou me dou para além de
mim, ou nada valerá a pena. E isso seria (sem qualquer dúvida) a maior tristeza
de todas. Porque não há maior viver que o que nos arrebata e deita ao chão e
nos tolda os sentidos, mostrando-nos todos os dias que somos capazes de (só por
acaso) um dia vir a ser felizes.
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