sexta-feira, 25 de abril de 2014

Das "estórias"

Saio de casa com a cara fria e as roupas que colam ao corpo e que pedem para não estar ali. Lá fora, um vento que corta no pescoço e nos lembra que os dias não são todos iguais, não são todos de chuva, não são todos quentes. Entro no carro sem saber bem que tirar primeiro, se a mala, se o casaco, se o semblante carregado, se o nariz franzido ou o gorro que esconde as orelhas. Decido tirar só a mala, o casaco e o gorro, afinal de contas, já assumi tudo o resto até ao final do dia, e quando assim é, não vale a pena lutar contra isso. Fecho a porta e por momentos deixo-me estar, como se ali regressasse a dias melhores, dias de palmo e meio em que tudo o que queriamos era um beijo na face que nos acompanhasse até à escola e umas meias bonitas que ao final do dia estariam rasgadas pela euforia das horas gastas. Deixo-me estar no cansaço dos dias de hoje, que nos apagam e nos amarrotam, desrespeitando o que pretendemos. Ligo o rádio porque assim torna-se mais fácil desviar pensamentos, porque as vozes e os sons nos puxam para fora de nós. E fora de nós deixamos de estar dentro, e ao deixar de estar dentro deixa de ser Inverno. Olho em frente, e vejo o casal de namorados que toma o café da manhã, ainda a fumegar. Fazem-se planos para um futuro que ficou por vir, constróem-se narrativas carregadas de quereres. Ao lado o velhote de expressão doce, cujas rugas na cara mostram uma vida que ainda persiste. Passa os olhos por quem passa, porque quem passa, como tudo o resto, não fica. A senhora impecavelmente vestida na outra mesa, sem qualquer pormenor descurado, desde a cor das vestes, ao cabelo, passando pelos ornamentos que orgulhosamente carrega. Como uma capa do que foi outrora e que não quer perder hoje. O brio que trouxe consigo e que se recusa a largar. Vejo através do vidro embaciado todas as vidas que há lá fora, e para cada uma contruo a minha história do que serão as suas "estórias". Crio personagens que provavelmente existem longe do que realmente são. Gosto de imaginar os dias por trás dos gestos, do rubor da pele, do brilho do olhar ou da expressão vazia. Com tudo isto distraio-me e não reparo que já passou muito tempo. Tenho de me pôr a caminho, foi para isso que hoje acordei. Decido fazer uma troca e colocar o gorro. Deste modo, posso tirar o semblante carregado e deixá-lo ali mesmo à porta de casa. Pode ser que quando volte o frio seja tanto que o tenha afastado. Afinal de contas, ao abrir a porta de casa, no meu regresso ao que sou eu, as personagens da minha história estarão lá, exactamente como as sonhei.

Amargura

Perdemos demasiado tempo a ver maldade onde não a há. Perdemos demasiado tempo amuados com ninharias. Perdemos demasiadas horas de vida de cara fechada quando ao invés poderiamos rir com gosto. Perdemos energia ao tratar com indiferença quem gosta genuinamente de nós. Perdemos momentos quando nos afastamos por irritação. Perdemos a razão quando apregoamos uma coisa e fazemos outra. Perdemos, perdemos, perdemos. Acho que está na hora de começarmos a recuperar esse tempo perdido. Como? Simples. Ao tirar as máscaras que sufocam e apertam e condicionam e torcem o nosso sentir. E ao começarmos (de uma vez por todas) a perceber que o amor e a amizade e o companheirismo e a cumplicidade não se perdem em decisões que nos ferem o orgulho. Se assim for, é porque nunca existiram (em nós). Há que deixar a amargura no tapete à entrada da porta, tirar as roupas que pesam no corpo e seguir em paz para o acolhimento de quem nos quer bem. Tudo o que assim não for, serve apenas para destruir e pintar de negro o que poderia ser diferente. Cabe a cada um de nós escolher como queremos levar a nosa vida. Se amargurados por inutilidades, se felizes pelos pormenores que constroem os nossos dias. Por mim, fico-me pela segunda opção. Lamento, mas não perco mais tempo a pensar no que poderia ter sido, quando nesse tempo perdido poderia estar a viver o que, de facto, é.

Unidos, de facto

Acho o termo "união de facto" absolutamente hediondo. É quase tão mau como o termo "namorido", que algumas pessoas utilizam para se referir ao namorado, que sentem como sendo seu marido. Acho isto uma tentativa brejeira de inventar algo que no fundo, toda a gente sabe que não existe. Para mim, o absoluto é o mais real, é o mais genuíno. Não quero um sumo de manga-laranja, quero um apenas de laranja. Ou apenas de manga. A mistura é uma tentativa de ter o melhor dos dois mundos, sendo que ao fazer o mix, se perdem as propriedades verdadeiras de cada um.

A "união de facto, à luz da legislação portuguesa, é “a situação jurídica de duas pessoas que, não sendo casadas entre si ou com outrem, independentemente do sexo, vivam em condições análogas às dos cônjuges, há mais de dois anos”. Consideram-na similar ao casamento civil.

Condições "análogas" às dos cônjuges?!! 2 anos (um ano e meio ainda não serve...)?!! Para mim, o termo "união de facto" foi criado por alguém que queria não mais que fugir com o rabo à seringa. Um calmeirão que após vir do ginásio e se sentir adorado pelos espécimes femininos, sem sentir pinga de culpa por libertar feromonas no mesmo sentido, chega a casa e diz à namorada: "Querida, amo-te muito. Tanto mas tanto, que tomei uma decisão importante. Quero que sejamos unidos de facto. Ou seja, quero que continuemos exactamente como estamos agora, mas unidos. De facto. Não quero trocar votos sagrados contigo, não me quero casar contigo, não quero ter de utilizar uma aliança que simbolize o nosso amor, não quero colocar rótulos na nossa relação. Quero que sejas mais que minha namorada, mas menos que minha esposa. Pode ser?"

Não compreendo de todo porque é que as "uniões de facto" atribuem os mesmo direitos civis e legais que o casamento. E não compreendo talvez por ser naif, assumo. Talvez por ainda acreditar que a troca de votos é algo que confere um estatuto diferente a quem na mesma está envolvido. Um caminho que vai além das burocracias e da festa e dos sorrisos e dos copos e de tudo o que esse dia e essa decisão implicam. Não se casa de ânimo leve. Ou pelo menos, não se deveria fazê-lo. Já o ser unido de facto, é algo que hoje vimos acontecer todos os dias. Basta ir à Junta de Freguesia da esquina, alegar que se vive com a pessoa debaixo de mesmo tecto, e sair de lá com um papel passado e contentinho da vida.

Lamento se ainda acredito que o matrimónio é mais que tudo isso. E lamento se abomino algo que para tantos, é a situação ideal de estar na vida. Unidos, de facto. Mas no fundo, não tanto assim.

Do (vulgo) amigo, qual mocho-galego

Sempre gostei de mochos. Têm um ar misterioso, olhos arregalados e estão associados desde sempre à sabedoria. Diz-se que são cegos à nascença, dotados de uma audição muito apurada, sendo também solitários e tímidos. No fundo, como alguns de nós. Mas de entre todos os mochos, de todo o mundo, há uma espécie que me é particularmente grata. Isto porque se assemelha bastante com o ser humano, numa ou várias das suas vertentes. Apresento-vos então o mocho-galego.


"O mocho-galego (Athene noctua) é uma espécie de ave estrigiforme pertencente à família Strigidae. É um animal de hábitos marcadamente nocturnos, embora, quando as condições o permitam, seja comum observá-lo durante o dia ou crepúsculo. De carácter oportunista, na dieta deste animal estritamente carnívoro (assim como todos os restantes mochos e corujas) figuram os mais variados tipos de presa: desde invertebrados terrestres, anfíbios, répteis, outras aves, e até mesmo animais atropelados em vias rodoviárias, de entre outros. É uma espécie sedentária, com preferência para zonas de planície e vegetação baixa, embora seja uma espécie com bastante polivalência em relação a este aspecto, sendo observada nos mais diversos tipos de habitat, incluindo zonas urbanas" (fonte Wikipédia).

Venho então falar-vos, com base nesta descrição do nosso querido mocho-galego, de uma nova espécie, apelidada de "mochamigo-galego". O mochamigo-galego é aquele fiel companheiro de copos que achamos que depois de uma noite bem regada estará lá no outro dia para tomar o gurosan connosco. Mas não. O mochamigo-galego, tal como a espécie da qual advém, é um animal maioritariamente de hábitos nocturnos ou que apenas aparece durante o dia quando existe algo deveras importante para o fazer sair do ninho. Descobrimos então aos poucos e fruto das vicissitudes da vida que o que é importante para o mochamigo-galego, não vai de todo ao encontro do que é importante para nós. Para ele, o importante é a festa feita à noite, para nós, é o amparo do dia seguinte. Outra característica do mochamigo-galego é o facto de se tornar por vezes um ser oportunista, que procura a sua presa consoante o lado para onde acorda virado. Se abre os olhos virado para a esquerda, interessa o afecto e as memórias e o passado e o que está para vir, se acorda virado para a direita, tudo isso não passa de vislumbres do que já passou e que nenhuma importância parece ter nos dias de hoje. O que já lá vai foi apagado da memória do mochamigo-galego, e o que importa é a vulgaridade e a efemeridade das relações passageiras do presente, que deixam marcas tão profundas que com o mesmo fulgor com que começam, terminam. Esta espécie de mochamigo-galego é sedentária e quando sai fora do seu poiso, por vezes mal se deixa ver. Prefere o quentinho do ninho, sentindo-se no entanto bem em vários habitats. Desde que o mesmo esteja decorado à sua maneira, não restem dúvidas. O mochamigo-galego por vezes incorre na rebeldia de saltar da árvore e deixar-se ver, mas tal como aparece desaparece, deixando nos restantes espécimes uma sensação de vazio, e a estranha sensação de que aquele talvez possa não ser o seu mochamigo-galego, mas sim outro qualquer, que existe numa realidade paralela só sua, e que um dia se assemelhou ao mochamigo-galego que outrora num passado tão longo como recente, fez parte das suas vivências. 

Apesar desta espécie me ser particularmente grata face à sua semelhança com os nossos semelhantes (passo a redundância), creio que só teria a ganhar ao aproximar-se de novas espécies de mocho, que evoluiram fruto do correr dos tempos. Não quero que entre em extinção, mas sim que se sinta crescer. Por exemplo, temos o exemplo do mocho-dos-banhados, também conhecido como coruja-do-bornal. Este sobrevoa várias vezes os locais que sente pertencerem-lhe por afinidade, e acaba sempre por voltar aos mesmos. Espécie com valores em extinção, esta. Que apesar de distante, acaba sempre, independentemente das circunstâncias, por regressar onde está aquilo ou aqueles que lhe importam. E ainda dizem que os animais não têm sentimentos. Crie-se uma escola de mochos para amigos, e sou a primeira a colocar uma série de inscrições na mesma. Hoje mesmo.

O jogo

Somos seres com pele, osso e sangue. Seres com coração, alma e sentir. Deixamo-nos cair por amor, ao amar sem querer quem surge em nós. A vida começa lado a lado, os caminhos convergem para o mesmo sítio, as noites são mais claras. Traçam-se planos, traçam-se futuros que não existem. Acredita-se que qual escada rolante, sem se ter de fazer muito se chegará ao destino prometido. Basta decidir subir. E o resto a vida encarrega-se de fazer. E passado uns tempos, descobre-se que isto não existe. O facilitismo não existe no sentimento maior. A existir, o que me apraz pensar é que seria batota. Seria batota tentar chegar ao cimo sem passar pelas várias etapas. Seria como jogar Monopólio, e não cair pelo menos uma vez na cadeia, ou ter de pagar porque o terreno de alguém nos afundou ao passarmos. Mudam-se os anos, mudam-se as prioridades. Consolidam-se as vontades, alicerçam-se os quereres. Como é possível chegar ao fim do jogo sem alterar a forma como se lançam os dados? Sem alterar a forma como movemos o nosso peão? Se formos sempre pelo mesmo sítio, às tantas andamos às voltas. Se não quisermos terminar o jogo, é de facto a táctica eficaz e (quase) infalível. Se apenas quisermos passar um bom momento, rirmos q.b., termos as sensações passageiras de um prazer efémero, de promessas que ficam no copo de vinho e no cigarro apagado.  Andamos em circulos, não há como cair fora. É seguro, nunca corremos o risco de ter de pagar por aquilo que nunca adquirimos. E de percebermos que não o comprámos porque no fundo não queriamos que fosse nosso. É como que um aluguer sempre com um prazo de validade, mas com a desculpa de que pode ser para sempre. Assim não vale. É batota. Lamento. Não é correcto. O aluguer aumenta, e temos de decidir ficar ou mudar. E se os tempos mudam e as vontades se aguçam as prioridades têm (obrigatoriamente) de mudar. Não queremos a meio do jogo o que queríamos no princípio. Queremos comprar terrenos e meter hotéis e de vez em quando (até) ganhar. Senão, mais vale deixarmos o Monopólio e jogarmos à sueca. Que é a quatro, mete cumplicidade disfarçada, várias mãos e um tempo limitado. Não tem nada que saber. Tão rápido como começa pode terminar. Seja pelos outros, seja por nós. Jogamos o que temos, e a mais não somos obrigados.

Os calimeros

Eu hoje ía falar sobre uma doença que afecta grandemente algumas pessoas, e que dá pelo nome de calimeirice aguda, mas acho que não vale a pena dar-lhe tanta importância. Isto porque quem padece desse mal alimenta-se invariavelmente das conversas, das penas, das atitudes, dos lamentos dos outros. Ontem em conversa alguém dizia que a velocidade das baratas aumenta exponencialmente consoante aumenta o seu tamanho. Também os coitadinhos desta vida aumentam a sua condição e agigantam-se consoante maior seja o foco que se lhes coloque em cima. O segredo neste caso é não alimentar lamurias. Se ignorarmos, acabam por ir mirrando aos poucos. Que no fundo, é o que convém. Se dermos azo à sua pieguice infundamentada, então é vê-los crescer e ganhar asas. E quando um sofredor de calimeirice aguda cresce, é bom que nos afastemos. Porque vai rapidamente querer (a)pegar-se à nossa pele, qual osga carente em noite de Verão. E deixar marca. Aquela marca que o rastejante deixa, que é como que uma vermelhidão que dá comichão e incomoda. E coçamos e só agrava. É essa a marca que o doente quer deixar. Quer incomodar os outros com o seu sofrimento idealizado. Quer que os outros pensem nele quando estão plenos, e se sintam culpados por (pasme-se) estarem bem. É uma patologia complicada, pior ainda porque quem a tem, normalmente sabe que é portador. Não passa pela fase da negação, que é sempre a primeira desculpa que se dá a quem evita tratar-se. Os calimeros que se nos atravessam no percurso assumem a alto e bom som que têm vidas desgraçadas. Que tudo lhes cai em cima. Que só lhes acontecem coisas más. Que ninguém lhes liga. Que são ignorados. Colocam-se no pedestal da "poucochinhice". É cansativo quando por descuido os deixamos entrar e revolver-nos as entranhas. E é por isso que eu resolvi adquirir o antídoto. Aquele que me permite ser feliz sem culpas, aquele que me permite ter o proveito da fama alcançada pelo carimbo de mau feitio, aquele que me permite limpar dos ombros o peso de quem se acha o pintainho com a casca de ovo na cabeça. Alguém (com mais paciência que eu) que um dia lhes faça ver que se tirarem a casca e se deixarem de lamentar, passam a ser pessoas comuns, com vidas passíveis de ser não menos do que extraordinárias. E na volta, começam a ser felizes. Ah, mas espera. Isso não dava jeito nenhum, não era?

Sonhos embargados

A palavra "embargado" faz-me sempre lembrar o construtor que iniciou a obra do condomínio, e que por falta de liquidez teve de parar a meio. O "embargar" para mim é o parar devido a obstáculos, visíveis ou não. É o não conseguir concluir um projecto, por falta de qualquer coisa. É o colocar o que se deseja na gaveta, e esperar. Esperar pelo momento em que se possa voltar a abrir a mesma, esperar pela altura em que tudo esteja alinhado para que os desejos se cumpram, esperar que o amor ganhe estatuto em dias, meses, anos, esperar que o vil metal aumente, esperar que alguém se chegue à frente, esperar que hajam dias suficientes, esperar que haja sol, esperar que não chova, esperar que não se acabe a fonte de abundância, esperar que o relógio avance, esperar que a vida esteja perfeita. Até lá, ficam os sonhos embargados. Ficam os sonhos presos a motivos e a condições que parecem (profundamente) essenciais. Ficam os desejos escondidos à espera que a gota de água perfeita caia no sulco perfeito do chão e crie a poça perfeita. Esperar, esperar, esperar. O que acontece não raras vezes com as obras embargadas é que acabam por assumir o estatuto de devolutas. Porque o construtor se esqueceu delas, porque criou novos desejos (mais pequenos e reais), porque edificou muros em vez de casas, porque as largou sem regressar. Esquecidas. O mesmo acontece com os sonhos que não realizamos. Ficam por ali, num baú da nossa memória, como saudosos episódios do que poderia vir a ser. Ficando sempre o "e se". E se não fosse necessário picar todos os pontos para se poder avançar? E se não fosse necessário alcançar a condição definida pelas marionetas do costume para podermos criar a nossa obra? Os sonhos embargados não são mais do que pequenos rasgões nas folhas do nosso livro. Em que por sua causa, acabamos por saltar dois parágrafos, mas como percebemos na mesma a história, nem achamos essa falta significativa. Idiotas que somos. E tão mais felizes seriamos se arriscassemos ler a história por completo. Veriamos por certo que os pormenores arrancados em palavras eram, no fundo, o que daria todo o sentido ao nosso conto.

Amo "te"

O "amo-te" deveria pagar imposto quando utilizado indevidamente. Deveria ter uma espécie de alarme, que quando invocado incorrectamente, despoletasse uma sirene e uma voz ameaçadora que diria algo como "Utilizou a palavra amo-te levianamente. Por favor dirija-se ao guichet mais próximo, para que seja devidamente autuado pela sua acção". Quando temos 14 anos é muito simples dizer um "amo-te". Andamos no 8.º ano e encantamo-nos pelo rapaz do 9.º, moreno e de sorriso sincero, jeans rotos e ar rebelde, e que naquela altura nos parece perfeito. Por algum acaso, ele também nos acha piada. Começam as mãos dadas, os beijos atrás do pavilhão, os passeios de Casal Boss ou de DT, as idas ao café no final da tarde, e às tantas, sai a ambos um "amo-te". E aquele "amo-te", eu aceito. Porque é dos primeiros, porque é aquilo que para nós, na altura, dignifica aquilo que sentimos pelo nosso principe adolescente de mochila Monte Campo. Depois crescemos, e com o crescer, todo um novo mundo se abre à nossa frente. Andamos por vários caminhos, experienciamos vários amores, e percebemos cada vez mais que o "amo-te" se tornou banal, e que é dito por qualquer réstia de gostar. Por qualquer carícia. Por qualquer dia bom. Por qualquer pequeno sentir que acalenta a esperança de que aquele "amo-te" um dia faça sentido, e seja algo mais do que é naquele momento. Ao fim de poucos dias já há um "amo-te". E não pode haver. Lamento. O puro, o verdadeiro "amo-te", tem de ser vivido. Tem de passar por montanhas sinuosas, tem de passar por temporais, tem de passar por dias de sol firme, tem de passar por dias cinzentos, tem de passar por gargalhadas, por mágoas, por lágrimas, por abraços, por suspiros, por esperanças, por anseios, por quedas, por noites em silêncio e por noites iluminadas. O verdadeiro "amo-te" tem de vir das entranhas, e ser dito quando já explodir no peito e chegar a doer. O verdadeiro "amo-te" não é sussurrado ao ouvido depois de uma ida ao cinema. É gritado com toda a nossa pele, com todos os nossos ossos, com todo o nosso sangue. Ao ponto de nos deixar esgotados. Com o cansaço bom que só se consegue após dizermos em voz alta (que é quando as coisas se tornam reais) o que foi crescendo em nós. O verdadeiro "amo-te" não é o socialmente "correcto" e com prazo de validade. O verdadeiro "amo-te" é o que desafia os limites do simples gostar. O que só aparece quando já sentimos ser demasiado egoísta guardá-lo em nós. E quando o mundo nos parece (finalmente) infinitamente pequeno para o conter.

Quando anoitece

É quando anoitece que procuramos respostas para as perguntas que não temos. Somos mais pequenos, estamos mais quietos, mais calados, mais em nós. Ouvimos sons que durante o dia nos parecem diferentes. Sentimos brisas que durante o dia não aparecem. Percebemos cheiros de rio que se confundem com odores de campo, de rua, com vidas que caminham nos passeios. É quando anoitece que desejamos mais o que durante o dia adormecemos em nós. Porque (dizem) que de dia, não dá jeito sonhar. Ousa interferir com a vida que nos fizemos calhar, faz-nos pôr em causa as horas iguais. E é quando anoitece que sentimos mais falta. Que queremos mais estar. Que nos apetece mais traçar percursos. Que sentimos com mais força que o que procuramos, pode ser nosso. É quando anoitece que não queremos estar sós. Ao estarmos sós, os sonhos que temos em nós perdem-se inevitavelmente no nosso silêncio. Camuflados. Esfumados. É quando anoitece que queremos revelar tudo o que nos deixa com sorrisos patetas no rosto e borboletas no estômago. É quando anoitece que perdemos os receios. Que o (nosso) mundo fica mais claro apesar da escuridão que insiste em fazer-se mostrar lá fora. É quando anoitece que nos resolvemos. E é na noite que nos entregamos. Que voltamos ao que somos. E que ansiamos que a manhã chegue depressa. Para podermos acordar, e ter a certeza de que a noite passada, de facto, aconteceu. E que os ideais da noite são agora os nossos caminhos. Do dia.

Carta ao São (em Primavera tardia)

Querido São Pedro,

Sabes que eu sempre gostei de ti, e que temos passado bons momentos juntos. Lembras-te daquela tarde na Fonte da Telha, em que estava um vento estúpido e em que tu, para que eu deixasse de levar com areia na boca, acabaste com ele? E quando trovejou como se o mundo fosse acabar, e eu tinha de ir para casa e só pensava que um raio me ía cair mesmo ali? Que fizeste tu? Pimbas. Um gesto, e a trovoada passou. Lembras-te das noites estreladas de Verão e das tardadas de Primavera a passear no parque? 32 graus e uma brisa suave... Mas São (somos amigos e sei que te posso tratar assim), ultimamente, não te andas a portar bem. Ele é calor abrasador em Março, ele é chuvadas e frio em Abril, uma pessoa já sai de casa de galochas e t-shirt, para estar preparada para tudo. Não gosto de não saber com o que contar. Pois que se é Inverno, saio agasalhada de casa, pois que se é Verão saio levezinha de chinelo no pé. Mas isto, São?!! Isto é esquizofrénico... Pois que há umas horas atrás estava eu numa esplanada a apanhar sol, passo às praias e já se vê gente estendida, famílias que trazem finalmente as crianças pálidas à rua, e toda a gente feliz, e hoje é isto?!! Hoje saio de casa e lá fora, é o dilúvio?!!! Quase que juro que vi Noé na A5, a tentar salvar a bicharada toda. Isto assim complica-me os nervos. A sério. Eu sei que andas stressado com uma série de coisas (ele é os subsídios, ele é o estado do país, ele é o Pingo Doce...), mas tenta lá superar isso, que o povo não tem culpa. Vá lá... Dou-te até ao final desta semana para corrigires a asneirada que andas a fazer. Se conseguires, amigos como dantes. Se não, vou avançar com uma petição para passar o pelouro do tempo para outro Santo. Quiçá o António, que sempre me pareceu um rapaz que gosta de dar o seu mergulhinho ali nas Avencas e apanhar um solzinho. Não te chateies comigo. Se não sou eu a dizer-te isto, que sou tua amiga, quem será?! Os outros pensam o mesmo, mas só falam nas tuas costas. Os cafagestes. Sabes que te adoro. Mas atina lá, ok? 


Beijinho grande, sempre tua,
Marta.


Part-time

Nunca fui grande adepta do part-time. Não gosto de vidas em part-time, de amores em part-time, de sorrisos em part-time, de abraços em part-time, de conversas em part-time. E não gosto, particularmente, de amizades em part-time. Aquelas que só funcionam nas horas vagas, quando o relógio, ou os dias, ou as vontades ou as opções, ou os "hoje dá-me jeito" o justificam. As chamadas curta-metragens. Para mim, tal não faz parte do meu filme. Sou uma pessoa plena, que exige não menos que a plenitude. Isto não é possível? Então, um bem haja. E um bom dia a todos. Eu, fico por aqui. Com a inteireza da(s) minha(s) pessoa(s). Que me completa, e me faz ser (todos os dias) um pouco mais feliz.

Dizem

O sol nasce todos os dias. Dizem. (Re)nascemos (nós) com ele. Pena não podermos levantar-nos sempre com o tal do brilho a ser mais forte, com a tal da atitude a querer despontar, com a tal da vontade a ser maior, com a tal da esperança a querer ser gente, com as tais das certezas incontornáveis (em nós). Pena que desabemos um pouco, por vezes. Pode ser apenas por segundos, pode ser apenas por suposições, pode ser apenas na duração de um sopro que mal se sente. Sentimo-lo nós. Ao sermos sangue, e pele e coração, somos frio, somos fragilidade, somos medo. Somos (nós). Irrepreensíveis no nosso modo de existir, culpados pelo nosso modo de sentir. Resta-nos (re)nascer, como o sol faz todos os dias. Dizem.

(Re)começos

Não interessa o que passou. Não interessa dividir o bom do menos bom. Não interessa o (tal do) balanço. Interessa (re)começar. Interessa sorrirmos, interessa a nossa determinação, interessa a nossa vontade, interessa o nosso querer, interessam as amizades, os nossos amores, os nossos sentires. Que a cada novo ano não fiquemos sentados à espera que a vida nos aconteça. Ela já nos tem. Sejamos ousados na forma de sonhar, e ainda mais na forma de concretizar. Se a página volta a estar em branco (como queremos ingenuamente acreditar), devemos então (obrigatoriamente) ser nós a escrevê-la. Os dias serão nossos. Basta (somente) dar o primeiro passo.