segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Hoje

Ela não contava que ele não soubesse o que era uma oitava, e ele não contava que ela não gostasse de saltar dunas na calada da noite. Ainda assim, tontos de si, imbecis de ideias e de vendas nos olhos, arriscaram ver o que se passava mais à frente, sempre na expectativa do desmoronar óbvio que se adivinhava desde o início. Cada dia era o escolhido para o final, para o virar de costas, para o adeus com o desapego próprio do que nunca existiu. No entanto, cada dia, e ao fazer o balanço próprio dos minutos de pausa, constatavam que a tarefa tinha sido lamentavelmente, desgraçadamente e vergonhosamente falhada. Mais uma vez, ainda não era altura do "vou ali e não volto". Os dias passaram. Os meses e os anos e a vida com eles. E hoje, ele ainda não sabe o que é uma oitava e ela ainda não gosta de saltar dunas na calada da noite. Continuam à espera do dia do suspirar de alívio e do confirmar das suspeitas que se assomavam desde o primeiro momento, só para puderem afirmar de nariz empinado e dedo em riste: "Nós sabíamos!". Mas até lá, tencionam continuar a ser estupidamente felizes, praguejando alto pela sua incapacidade de darem cabo de tudo. Parece que o que não está talhado para ser custa muito mais a partir do que tudo o que nasce já com as arestas limadas. O que vale é que são ambos de uma teimosia atroz, e não há um dia em que ao acordar não se olhem com o embevecimento que carrega quem gosta com "A" grande, se abracem com a pele inteira, sorriam um para o outro, e pensem em voz alta e decidida: "Amor, é hoje".

De antemão

Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estaria amena, não correria brisa alguma, e a lua estaria fora do seu campo de visão. Iria sentar-se lá fora a ler um livro, e fingiria que ainda se lembrava em que ponto da história tinha descansado a última vez. O livro era sempre o mesmo há muito tempo. Abriria na página que a sorte ditasse, passaria os olhos pelas primeiras dez frases (doze, se o dia tivesse sido atípico), e a partir daí, seguir-se-ia a rotina dos pensamentos de cor. Cinzentos se as horas tivessem custado a passar por definhamento de um peito sozinho, azuis claros se as horas lhe tivessem cravado olhares na lembrança de dias melhores, e brancos se as horas tivessem sido pautadas pela calma de quem (já) teve e aguarda o que se segue. No fundo, o seu anseio pelo final do dia justificava-se tão somente pela satisfação da curiosidade que a acompanha sempre nas horas que o precediam, de descobrir qual a cor dessa noite.
Sabia de antemão como iria terminar o dia. Invariavelmente a noite estava amena, não corria brisa alguma, e a lua estava fora do seu campo de visão. Sentou-se lá fora, abriu o livro numa das páginas amarelecidas pelo tempo, e passou os olhos pelas primeiras duas frases. Percebeu que as palavras (dessa vez) não lhe eram familiares. Não falavam de quereres embargados, nem de esperas infinitamente prolongadas por dias diferentes. Não falavam de desejos escondidos atrás das costas, nem de passeios que nunca chegariam a acontecer. Não falavam de abraços por dar nem de sorrisos por rasgar. Não falavam de sonhos ridículos e gastos de tanto serem elaborados, pormenorizados, rasurados e rescritos. Não falavam de vidas incompletas nem de histórias a meio. 
Eram palavras que não reconhecia por não lhe fazerem parte dos dias.
Levantou-se e posou o livro na mesa. Reparou que a noite (dessa vez) estava mais fria, que corria um ar que sabia a Invernos quentes por dentro. Ergueu os olhos e (dessa vez) a lua estava mesmo à sua frente. Perfeita, com todas as suas sombras desenhadas a carvão. Voltou a abrir as páginas, e (dessa vez) continuou a ler.

Nessa noite, deixou finalmente de saber de antemão como iriam terminar (todos) os seus dias.
E (dessa vez), adormeceu na certeza de que o acordar seria infinitamente melhor.

Meio.

Vejo de fora da redoma em que a vida acontece que as meias-felicidades continuam a ser tão válidas que começam aos poucos a ganhar espaço e a serem consideradas verdadeiras. As meias-vidas. Os meios-sorrisos. Os meios-abraços. As meias-palavras. Os meios-amigos. Os meios-amores. Querer pela metade é cada vez mais estandarte da maioria, e isso entristece-me. Porque não me imagino a passar pelos dias com menos do que tudo. Ficar pela metade é assumir que não se é inteiro. É o comodismo da vida já escrita, é o não desviar de um caminho inconscientemente (e inconsequentemente) traçado. Como poderemos existir em pleno, se não pretendermos tudo aquilo a que temos direito? As meias vidas levarão sempre a cordiais estender de mão, a “bons dias” forçados e sussurrados entredentes, a copos contidos tomados em alturas marcadas, a sorrisos de canto de boca, a noites programadas e sem falhas, a dias menos tumultuosos, a amizades que sobrevivem só até onde a vista alcança, a amores serenos que durarão uma vida mas que mais não serão que companhia. Mas as vidas por inteiro… Ah, as vidas por inteiro… Essas, levarão a abraços apertados dados quando menos se espera a quem queremos bem, a cumprimentos sinceros na rua a um estranho que passa naquele momento (também) a ser nosso, a jantares regados a tinto tirados da cartola no último segundo só porque sim e (inevitavelmente) por nada, a risos incontroláveis que entorpecem por fora e engrandecem por dentro, a noites sem rumo de estrelas por cima e peito carregado de histórias e alegrias, a dias (por certo) mais tumultuosos mas tão (mas tão) mais deliciosos, a amizades que vão muito além das palavras prometidas e que merecem cada letra que carregam, a amores imprevistos e impossíveis que se consolidam porque o corpo e o coração e cada parte do ser não pode sequer imaginar outra possibilidade que não essa. Amores que como diz Vinicius, “serão eternos enquanto durem”. Os únicos (no fundo) de que vale a pena falar. Entristece-me ver que se vive pela metade. Eu, na minha ingenuidade de menina-mulher, continuarei cada dia a praticar a inteireza dos meus. Ou me dou para além de mim, ou nada valerá a pena. E isso seria (sem qualquer dúvida) a maior tristeza de todas. Porque não há maior viver que o que nos arrebata e deita ao chão e nos tolda os sentidos, mostrando-nos todos os dias que somos capazes de (só por acaso) um dia vir a ser felizes.

...

Cobra-se o tempo, contabilizam-se as palavras, riscam-se as atitudes, e saldam-se os abraços, num jogo do quem tem mais. Exibe-se o estandarte de quem é mais amigo, de quem conta mais situações, de quem faz mais planos, de quem liga mais vezes, de quem sabe mais do que o outro disse, só porque sim. Vangloriam-se os abutres do alto da (sua) falta afeição, à espera que o outro caia para o poderem chorar. Para levaram a palmadinha nas costas e serem visto com o pobre que ficou sem amparo. E passado o tempo que se julga ser socialmente necessário, volta a crescer o bico, voltam a despontar as asas, e volta a ser traçado o plano de combate para aterrar sobre o objecto desejado. Deixam de andar às voltas como dantes, pois tal já não faz sentido. Agora que já ninguém suspeita, agora que já se lacrimejou, agora que já se inventou, agora que já se fingiu sofrer, agora é a altura certa. Cai o pano e ninguém percebe, porque os verdadeiros estão vazios, estão recolhidos, estão feridos, estão cegos e escondidos no escuro do seu sofrimento, e não sabem quando retornar à luz. O único problema deste plano é quando a peça tem uma continuação, e não finda com as linhas que se esperava. O pior é quando o herói volta para a sequela, e trás consigo os braços direitos colados ao ser. Nessa altura o abutre cai por terra, faminto na sua vontade de tudo ter. Morre o abutre de frustração. Definha o abutre de podridão. Ficam apenas os pássaros brancos que trazem o sol, os que se deixam poisar no ombro só porque sim, porque gostam de estar por ali, porque gostam da companhia, porque gostam do afago. Esses não voam para longe quando o céu escurece. Ficam presos onde vale a pena, não por cobiça, mas por uma questão de renascer a cada respirar junto. Sem cobranças, sem contabilizações, sem atitudes encenadas, sem palavras retiradas do livro do “faz assim que vais ver que resulta”. Às vezes as pessoas esquecem-se que quando o sentir é verdadeiro não precisa de ser relembrado constantemente em momentos que passaram, alguns só para preencher os dias. Às vezes as pessoas esquecem-se que ao quererem inventar algo na sua história de fadas, tal aparece como absolutamente disparatado na realidade dos que vivem do outro lado da linha. Esses (nós) somos reis das nossas certezas, e olhamos com altivez todo o desespero do outro lado, por uns pedacinhos de tão pouco que durarão apenas dias. Quando o que importa realmente não é (nunca é!) dado na mão, é impresso na pele. E dura nunca menos que uma vida.

Ao São (Pedro)

São, 
Estava a tentar evitar ter esta conversa, porque da última vez o cenário não foi bonito. Não, não... Mas pronto, já passou. E perdoei-te. Esqueci o passado e os dias turtuosos que me fizeste viver. O meu coraçãozinho acalmou a mágoa, ...e estava agora pronto para nele te voltar a acolher. Estava, São. Passado, ouviste?! E não me venhas pedir clemência com esses olhinhos de Bambi, que comigo não resulta. Tens noção do que me tens feito?!! Tens noção que tenho em mim a sensação de que há 5 meses seguidos que não pára de chover?!!! Que é isto, pah?!!!! A minha roupa de Inverno já olha para mim de lado, os meus pés já não querem botas, estou farta de escorregar nas calçadas encharcadas, cansada de correr para o carro para não levar dez banhos por dia, já não aguento mais acordar e só ver cinzento à volta, e a minha cara está tão pálida que se não me ponho a pau, serei a protagonista da sequela da Família Addams. As pessoas passeiam-se tristes pelas ruas, São.. Já nem abrem os guarda-chuva de tanto desalento que têm no peito, já nem se incomodam em procurar um sítio para se abrigarem. Não chega já o estado do país, ainda temos de levar com água na real tromba todos os dias?!!! Já para não falar das trovoadas, que ou tu tens andado a dar no feijão como se não houvesse amanhã, ou então queres só assim de repente acabar com o Mundo. Sabes bem que moro perto da 25 de Abril, e já vi essa menina a tremer muito menos com as tuas investidas. Que se passa, São...? Não te reconheço... Tu que és menino para uma mini gelada acompanhada de uma bela caracolada junto à praia (o que tu gostas de molhar o pãozinho no molho, que eu sei). Tu que me ligas no Verão só para saber se a água do mar estava quentinha (e se usei aquele bikini que me ofereceste nos anos). Tu que és um festivaleiro do pior, e que gostas de ir de calção e tshirt para as arenas empoeiradas recordar os teus tempos no ano 20 d.C... Não percebo, a sério que não percebo. Portugal não aguenta mais humidade (já dizia a outra senhora que o problema é, de facto, da humidade). Sentimo-nos neste momento panos empapados, São. Isso mesmo que leste. Panos. Empapados. Dá para fechar a torneira e mandar vir o sol? Bolas, pah... Não te peço tanto assim. Aumenta a temperatura que pode ser que eu aceite jantar contigo. Uma shushizada daquelas à antiga. Que dizes, uhm...? Mas aviso-te já que é a última vez, São. A última. Não estou para isto. Vá, 'cá um abracinho. 
Beijos da sempre tua, Ma'tita.

"Estórias"

Ela gostava de fazer teatro. Gostava de ir ao ballet. Gostava de ir sempre aos mesmos restaurantes. Gostava de acampar. Gostava de de comer tremoços. Gostava da Primavera. Gostava de beber gin. Sonhava com uma casa no último andar do edifício mais alto da cidade. Ele gostava de ler. Gostava de jogar futebol. Gostava de experimentar bares diferentes. Gostava de ficar em hotéis. Gostava de comer amendoins salgados. Gostava do Outono. Gostava de beber café. Sonhava em ter uma caravana que lhe permitisse não ter morada certa. Ela era desastrada e ria alto. Ele era metódico e de uma simpatia discreta. Ela corria sempre para o lado do sol. Ele ficava sempre na sombra, onde estava mais fresco. Um dia ela encontrou-o. Um dia ele não a deixou escapar. Ela e ele, cresceram para o mesmo lado, até pararem, por imposição, de o fazer. Passado anos perderam-se um do outro no meio da multidão quando ela decidiu que não queria alguém que não gostasse dos mesmos filmes de domingo à tarde, e ele abdicou de ter alguém ao lado que não gostasse do cheiro da relva acabada de cortar. Ela passou a viver só, no seu mundo sonhado. Ele passou a estar sozinho, rodeado de tudo o que idealizou. Agora ela vai ler para a praia e ele vai viajar. Agora ela dorme tarde e ele acorda cedo. Agora ela vai tomar o pequeno-almoço na esplanada e ele vai ao sábado de manhã comprar o jornal. Agora ela canta no banho, e ele aprendeu a tocar piano. Um dia, ela sai de casa e vai até ao parque. Um dia, ele sai de casa e vai até ao parque. Um dia, sentam-se no parque lado a lado. Um dia, perdem-se nas horas com o cair da tarde. Um dia, faz-se noite. Um dia, percebem que o açúcar que ela coloca no chá é o mesmo que ele gosta de ver polvilhado no pão de Deus. Percebem que o chapéu dela fica bem no cabelo desalinhado dele. Que os braços dela encaixam nas costas dele. Um dia, percebem-se. E os dias deixam de ser linhas, e passam a ser "estórias".

Carruagem

O cheiro a quente da carruagem do metro estava a deixá-lo mal disposto. Misturava-se com o cheiro das pessoas que apressadas entravam e saiam sem que algumas soubessem sequer para onde ir. Ele assistia mudo a este teatro ensaiado e deixava-se ficar. Via as estações passarem através dos vidros baços, e os muros a desaparecerem por trás dele a velocidades compassadas. Gostava de viajar assim, pela sua (sempre) Lisboa. Às vezes passava os dias inteiros neste jogo que inventou para si. Via entrar a senhora com as crianças pela mão, a blusa bolsada pelo mais pequenino e o cabelo desalinhado pela azafama da manhã que para ela tinha começado de madrugada. O pseudo intelectual de esquerda que se senta com o livro gasto que comprou no alfarrabista do Chiado, e que já releu 5 vezes. No entanto, continua a parecer-lhe o melhor acessório para estas passagens rápidas pelo sub-mundo da cidade. Entram depois os namorados a caminho do liceu, mãos dadas e pensamento na festa que terá lugar no fim-de-semana. "Talvez aconteça", pensa ele. "Talvez seja o dia", suspira ela. Passa com lentidão o bancário, na sua camisa amarrotada e gravata cor de cortiça, oferecida por uma mulher que não a sua, de quem não gosta como a sua. Entra a esposa radiante, barriga de vários meses, e o marido, que a ampara. Sonham com o futuro que os espera, sorriem na sua inocência de quase-pais, de quem já passou por todas as outras etapas e a quem falta esta para serem completos. Senta-se o velhinho, impecável no seu fato engomado. Ainda hoje quando sai de casa se apronta como quem vai para um banquete, para um casamento, para um velório. O último foi o da sua companheira de vários anos, que o deixou assim. Perdido em si, perdido pelas ruas, onde a única certeza que continua a ter é a de que não pode sair de casa sem ter o cabelo bem penteado e a água de colónia no pescoço. Foi assim que tantos anos o fez, foi assim que durante anos saiu de peito inchado com a sua senhora à rua. De braço dado. Também ela altiva, irradiando uma calma feliz, com um brilho que não se vê nos jovens. O brilho de quem abraça a vida como se por si fosse criada. De braço dado. Sempre de braço dado. É esta a vida que ele procura quando entra todos os dias na carruagem. São estas as personagens que já conhece e que lhe fazem companhia, sem saberem. Aguenta os cheiros e os toques involuntários, aguenta o balançar enjoativo e os estofos rasgados e gastos. Aguenta o quente do ar e os gritos das crianças. Aguenta os segundos, os minutos, as horas. Aguenta-se a si. E regressa a casa com o coração cheio, muitas vezes quando é já o único passageiro e lhe pedem gentilmente que saia. Que vá. Roda a chave na porta, e enfrenta a escuridão apenas quebrada pelo único candeeiro da rua. Deita-se, e escolhe não ficar triste essa noite. Afinal, já é tarde, e falta muito pouco para que a carruagem volte a andar.

Quanto tempo?

É hora de almoço e os corredores estão apinhados. Gente que procura muito por pouco, que os tempos não estão para mais. Vejo-te chegar tímida na farda que te obrigam a usar todos os dias. A tua vaidade perde-se durante a manhã, quando tens de esconder as roupas que tanto estimas para colocar por cima a máscara que te identifica apenas como mais um nome. Mais um número. Mas um rosto. Chegas acanhada e apressada, já sem olhar para o que podes escolher. Também ali já te habituaste a optar sempre pelo mesmo. Pelo menos assim sabes sempre com o que contar. Fazes o teu pedido quase num sussuro e não levantas os olhos do tabuleiro sujo, onde já tantas mãos passaram. Sentas-te na mesa do canto, na cadeira mais ao fundo, perto da parede mais fria. O ritual de desembrulhar os talheres também já não te é estranho. Estranho seria algo ser diferente. Abres a revista que compras todos os dias, e onde lês as vidas dos outros, sonhas os vestidos das outras, imaginas os seus amores e as suas casas e invejas os sorrisos e o facilitismo que sempre consideraste como a excepção. Daí não o criticares. Também tu querias fazer parte desse mundo desenhado a lápis de carvão e pintado com aromas e cores que em ti não existem. São breves os minutos que dispensas para ti, mas suficientes para que sirvam como mais uma botija de oxigénio que te ajudará a aguentar o resto do dia. Limpas as mãos e a boca, bebes o café que te desperta e forças as pernas que não se querem erguer. De regresso ao teu corredor, olhas a bata branca que envergas e imaginas que tem um cartão preso que escreve "Dra." antes do teu nome em maiúsculas. A personagem que sonhavas ser e que ficou pelo caminho, perdida em tantas outras realizações que não escolheste para ti. Ficas triste por instantes, mas em seguida sacodes a cabeça e um sorriso invade-te o peito. Pensas no filho que tens em casa, pequenino na sua existência, e que todos os dias te recebe com o maior abraço do mundo. Teu bem maior. É fruto de ti e daquele que dizes ainda hoje ser o homem da tua vida. Um homem que te roubou aos planos que a vida tinha para ti e traçou os seus. Esqueceu-se apenas de perguntar se querias entrar na história, e se terias algum capítulo para acrescentar. Esqueceu-se apenas de te dizer que te amava, achavas tu que por descuido. Tarde percebeste que não to disse porque não estava delineado. Planeou não gostar mais de ti do que o necessário. E tu esqueceste-te de lhe dizer que isso era importante. Que fazia parte de ti, esse amor. Foi-se embora e ficaste para trás. Tu e os teus sonhos e os teus planos que não cabiam nos dele. Mas nessa tarde tomas uma decisão. A única em anos de solidão. Decides que amanhã não vais vestir a farda. Nem no outro dia nem no outro nem sequer no outro que se seguirá. Decides que não combina com os teus olhos, que o branco te empalidece e faz o teu cabelo parecer baço e sem vida. Decides que vais dobrá-la e esquecê-la em cima da cama. Que vais colocar um vestido bonito, soltar o cabelo ondulado que com tanto orgulho herdaste da tua avó e tão bem te cai nos ombros. Vais pintar ao de leve os olhos e colocar um baton que te abra o sorriso. Calçar uns sapatos bonitos que tinhas guardado para uma ocasião especial, pegar no teu pequeno, e abrir a porta de casa. Seguirás directamente para o parque, que nesta altura do ano está mais bonito que nunca. De um verde imaculado que com a humidade da noite parece brilhar ao sol da manhã. Vais respirar fundo, abraçar a tua vida, e sorrir. 
Há quanto tempo não sabias de ti?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

(É) simples.

Às vezes ela chegava a pensar que os dias podiam ser simples (de tão perfeitos).

Acordar de manhã, abrir a janela do quarto, ir até à varanda, e deixar-se beijar pelo sol e inundar pela brisa fresca que entraria em si. Sentir um arrepio bom e a pele a renascer. Começar um novo dia com uma inspiração profunda e de olhos fechados, para sentir os cheiros de um qualquer campo ali bem perto. O cheiro das árvores de fruto, das flores, do fumo das chaminés, da infância que está dentro. Voltar para dentro e tomar um banho morno, que purificasse o corpo e despertasse o coração. Vestir algo confortável mas que a faria sentir-se bonita e aconchegada, como só os dias de sol e frio conseguem. Sair à rua, dar os bons dias a quem passasse, parar no primeiro café com cheiro a pão acabado de fazer. Quentinho, com a manteiga caseira a derreter por cima, e o café quente a fumegar nas mãos. Folhear o jornal e ver apenas notícias boas, das que enchem o peito. Seguir depois em direcção ao mar, à praia que tem um encanto especial nos dias de Inverno. Quase deserta, antes da confusão dos meses que estão por vir. Nessa manhã, só dela. Só sua. A areia a brilhar, o mar ao fundo, o som que faz a chegar-se perto. Sentar-se. Deixar que a cabeça pensasse no que a ocupa. Sem culpas, sem tentativas de fuga, sem mostrar a direcção, sem filtros. Deixar apenas que as memórias do que vive trouxessem o sorriso tão seu. Deixar-se ficar, sem tempo marcado, sem horários, sem pressas. Segundos, minutos, horas… Respirar. Ser. Estar. Sentir. Deixar passar os ponteiros numa calma que os dias normais não permitem. Numa paz que raramente aparece. Deixar o corpo descansar do mal estar da rotina diária. Das mágoas, das dores, das lutas, da falta de abraços, dos afectos escondidos (perdidos). Levantar-se depois e caminhar… A distância necessária que o sentir peça para ser. Nunca menos que isso. E assim terminaria a manhã, e a tarde começaria a surgir. 

Talvez com um almoço numa esplanada coberta (ainda com a mesma vista de cortar a respiração, pois há coisas que nunca são demais), com cadeiras confortáveis e carregadinha de aquecedores “cogumelo”, daqueles que deixam ser Inverno lá fora mas trazem o aconchego do Verão para dentro (ela sempre foi fascinada por estes aquecedores e este tipo de cenários, apesar de nunca ter percebido muito bem o porquê). No final do almoço ser surpreendida pela chegada da melhor das companhias. Abrir o seu melhor sorriso, aquele que só surge espontaneamente e em casos muito especiais, e deixar-se levar pelo braço. Fecharem bem os casacos para o frio não entrar e subirem para quem os levaria dali para fora e lhes mostraria o capítulo seguinte. Percorreriam quilómetros só pelo prazer de rolar, devagar, com o sol ainda a brindar a tarde, e o tal frio que entraria no corpo e os faria sentir vivos. Até chegarem a um qualquer destino, que tanto podia ser aquele como qualquer outro. Porque o que importa não é onde se chega, mas sim com quem se faz o caminho. Acabariam por se perder em conversas que durariam horas, que tornariam silêncio o que estivesse à volta. Acabariam por se perder em sorrisos e numa timidez só sua, que só tem quem sabe a certeza do que lhe vai dentro. E que por ser tão verdadeiro causa no estômago e na garganta e nos olhos uma sensibilidade que não se apaga.  Acabariam por se perder em abraços apertados que apenas o sol a pôr-se conseguiria apartar. Em breve cairia a noite, e a hora seria de seguir em frente.

Desta vez resolveriam ir com mapa traçado, porque ambos sabiam como pretendiam terminar as horas. Regressariam ao ponto de partida (não é sempre assim? Não regressamos sempre ao último ponto onde fomos infinitamente felizes…?). Preparariam o jantar com cumplicidades que não se perdem, e a mesa seria posta no jardim, naquele local coberto e iluminado de um modo simplesmente perfeito para que a luz não faltasse e ao mesmo tempo não chegasse nunca a ser incómoda… Seria aberta a garrafa de tinto que estava reservada para os dias perfeitos (nunca perderam a esperança que os mesmos pudessem existir). Sentar-se-iam um em frente ao outro, olhos nos olhos (como é suposto olharem-se sempre as pessoas que nunca se querem perder de vista), e o sorriso tonto sair-lhes-ía do canto da boca, sem que disso dessem conta. Ao fundo começariam a soar as músicas que sempre os acompanharam, para aconchegar ainda mais a noite. Segurariam então com delicadeza os copos, que ergueriam depois à altura das bocas. Fariam o brinde que já lhes é familiar, e deixariam de se olhar apenas com os olhos. Agora fá-lo-íam com o corpo todo, o mesmo que já deixou de lhes pertencer sem que nada pudessem ter feito em contrário. Seriam já um do outro naquele brinde, naquele hora, naquele som, naquele olhar, naquele sorrir. Nessa noite, pelo menos nessa (e seria a única que importaria), nada quebraria o que se criou. Passariam segundos perdidos em abraços, no reconhecimento dos lábios, e no toque suave que aparece quando nem é necessário tocar.

Cairia então a noite escura e o dia findava. Ela deitaria a cabeça na almofada, descansando o corpo pleno de felicidade, e pensaria para si…

“Afinal, ainda há dias simples (de tão perfeitos).”

Em seguida abriria os olhos e veria que não repousava sozinha. Ao lado, um sorriso igual ao seu, uma serenidade como a sua. Reformularia então o que pensou segundos antes. Mas desta vez di-lo-ía em voz alta, onde tudo o que é dito se torna real.

“Afinal, ainda há vidas perfeitas (de tão, mas tão simples)”.

Fecharia os olhos e adormeceria, finalmente, em paz.

Sem medos.

Como se reaprende o silêncio…?
Como voltamos a estar apenas connosco? Como se volta à estrada principal, depois de tantos anos por atalhos já traçados, já tão fáceis de seguir? Como se volta a ser um, depois de se ser muitos mais? Como se volta a acordar sozinho, e a adormecer apenas consigo?

Como se reaprende a solidão…?
Reaprende-se recomeçando. Do início. Sempre.
Reaprende-se na coragem de sermos inteiros, sem necessidade de só existirmos nos outros. Porque antes de sermos nós com eles, somos nós connosco. E tantas vezes nos esquecemos disso… Reaprende-se uma nova vida sem deixar a antiga. Aquela que nos formou, nos toldou, nos dobrou, nos marcou, nos bateu, nos fez chorar, nos fez sorrir, nos trouxe os piores e os melhores momentos possíveis. Aquela que nos fez crescer.
Nunca se abandona totalmente o que ficou. Porque somos feitos dessas poeiras. Somos carne dessas vivências. Somos pó na roupa e no corpo e na alma, dos anos que (nos) passaram. Fechamos a porta atrás de nós, e deixamos apenas o que nos faz mal. Porque tudo o resto, tudo o que já é parte de nós, fica para sempre por dentro. Nunca perdemos o que criámos, o que fizemos nascer, o que nos saiu do coração e do peito agora rasgado. Levamos connosco quem nos é tudo. Quem nos ficará para sempre, fechemos as portas que fecharmos atrás de nós.

Ninguém nos disse que os sonhos mudavam, ninguém nos avisou que os “para sempre” são parte do conto de fadas, ninguém nos preparou para não sermos felizes à primeira e nem (sequer) à segunda. Ninguém nos precaveu que pode haver a terceira, e que isso não irá nunca deitar por terra tudo o que (já) ficou. Ninguém nos contou que os filmes só existem no ecrã, e que na vida real, é raro acertar-se quando e como se quer. E ainda bem. Ainda bem que ninguém nos cortou os desejos logo de início. Porque assim conseguimos ser inconscientemente felizes e acreditar por momentos que a eternidade podia existir tal como a imaginávamos. Ainda bem que nos deixaram viver e partilhar sorrisos. Temos de ser nós a perceber quando esse sonho termina para dar lugar a outros. Sem ajudas, sem tempos extra, sem minutos de desconto, sem pausas. Perceber, agir, procurar, ser. Ter a força de mil homens para o que o amanhã nos reserva. E ser enorme ao fechar a porta. Para que, mesmo com o peito apertado e perdido no turbilhão, saibamos com todas as certezas, aquelas que só existem de vez em quando, que o importante vai sempre connosco. Nunca se perde.

Mudam as rotinas, mudam as vivências, mudam os cenários. Muda a casa, mudam as paredes, mudam os tectos e as luzes da rua. Mudamos nós com tudo. Não muda o nosso amor pelo que é (verdadeiramente) nosso. E pelo que nos terá (genuinamente) para sempre.

Como se reaprende o silêncio…? 
Sem medos, de cabeça erguida, e com a coragem de quem ousa ser feliz nem que por um momento, antes ainda que a vida termine e não exista nada para ter pena de ser tão cedo. Mesmo que aconteça daqui a cem anos… Se reaprendermos o silêncio, se formos nós connosco e com quem queremos bem, chegaremos ao fim sempre com pena de não haver mais tempo. Mas se nos deixarmos consumir pelo que ficou atrás das portas, o fim parecerá quase sempre tarde demais, para uma vida tão (ridiculamente, pensaremos então) pela metade.


O silêncio reaprende-se sozinho por fora e pleno por dentro. 
Porque mais importante que as feridas de quem fecha etapas que pensava durarem até ao fim, são os sorrisos de plenitude de quem abre as portas que estão em frente. Porque uma delas, a mais bonita, a que custar mais a abrir, a que tiver por cima o número com que nos identificamos, aquela onde soar a nossa música, e onde conseguirmos sentir os cheiros que nos fazem sentir quentes por dentro, aquela onde saberemos de imediato um dia vir a rir e a sentirmo-nos nós novamente, uma delas (essa mesmo…) trar-nos-á novamente aquela confusão barulhenta e tremendamente encantadora, a que chamamos Casa. E aí, estaremos de volta. Prontos para voltar a acreditar nos “para sempre”. Eternamente até durar.

A mais.

Estás a mais quando o mundo não te pertence.
Estás a mais quando o sorriso não é para ti.
Estás a mais quando te lembras que a pele é distante.
Estás a mais quando és apenas rascunho.
Estás a mais quando esta história não é (a) tua.
Estás a mais por sentires que não pertences a nenhum dos contos.
Pois um já está escrito (há muito)  e terá o final de que os filmes não abdicam.
E o outro está no início e só por vontade suprema passará das primeiras páginas.
Porque o herói é de outra história, de outro livro, de (um) outro filme.
E tu queres ser a protagonista e és papel secundário.
Queres ser rainha e não passas de princesa.
Queres ser inteira e és só metade.
Depois do “Era uma vez…” não entras mais.
Mas sempre te disseram que não há papéis pequenos, apenas pequenos actores.
E tu tens a estranha mania de acreditar no que ouves.
Então sentas-te na primeira fila, e esperas por uma qualquer fala que surja no ecrã, te tire a respiração e te devolva as certezas.
Agarras-te então a esta peça, que sabes não ser tua, e pensas reescrevê-la a partir da deixa certa, dita no segundo perfeito.
Arriscas pegar no lápis, no livro em branco, e ser directora dos (teus) conteúdos.
Juntas os cenários, as sensações, as músicas, os jeitos de ser, e fazes ser luz.
Se o filme não esgotar as bilheteiras, regressarás aos bastidores, que adoptarás como lugar, com uma resignação que nunca antes coube em ti.
Mas se esgotar… Ah, se esgotar… Ninguém te tirará o “ponto final” cliché de todas as histórias infantis que ouvimos em pequenos.
E nessa altura (só nessa altura), o tal do "para sempre" nunca te parecerá tão curto como então.

Tu (contigo)

No fundo, nunca te apercebes quando aconteceu. Quando foi aquele preciso momento em que tudo se deu. Acordas um dia e já não estás no sítio habitual. Não percebes como foi possível ires ali parar, se no fundo nunca fizeste nenhum desvio do caminho que devias seguir. Mas abres os olhos, e estás lá. Num lugar diferente, sem rede por baixo. Olhas em volta e já não está ninguém. Como se tivessem apagado as luzes quando ainda vagueavas pelos corredores, sem se aperceberem que por ali continuavas. Sem darem conta. Num momento tudo é a cores, viras a esquina, e de repente faz-se noite. Não há ruído, não há vozes, não há caras, não há horas. Dás por ti contigo, e perguntas-te para onde vais agora. Não encontras o interruptor, não tens nenhum braço em que te apoiar que te guie à saída, nem nenhuma escada para subir à janela mais alta donde possas ver a lua. Para que deixe de ser noite, sem que no fundo o deixe de ser. Só porque já consegues ver. Acordas um dia e estás só. Só com as tuas decisões de pessoa crescida, só com as tuas opções de menina pequena. Só, só, só... É agora que se complica. É agora que tens de ser tu. Ser a pessoa que apregoas ser, ser a pessoa que os outros reconhecem como real, ser a pessoa que faz parte deste mundo e que conta como uma peça mais no jogo que se criou. É neste momento que tudo se decide. Se não conseguires ser tu contigo, apaga a luz e recolhe-te num canto. Espera que o dia volte, correndo o risco do eclipse ser eterno e te perderes (para sempre). Mas se conseguires ser tu contigo, serás quem decide quando abrir os olhos e voltar a ver. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser noite. Porque tu contigo, na reconciliação do que foste outrora, és estrada e és caminho e és ponte que atravessa a dor. Que faz chegar onde um dia passaste e achaste não ser para ti. Agora, agora que és tu contigo, mereces ser estupidamente inteira. E não há, em qualquer parte do mundo, quem te consiga fazer ser menos.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Das "estórias"

Saio de casa com a cara fria e as roupas que colam ao corpo e que pedem para não estar ali. Lá fora, um vento que corta no pescoço e nos lembra que os dias não são todos iguais, não são todos de chuva, não são todos quentes. Entro no carro sem saber bem que tirar primeiro, se a mala, se o casaco, se o semblante carregado, se o nariz franzido ou o gorro que esconde as orelhas. Decido tirar só a mala, o casaco e o gorro, afinal de contas, já assumi tudo o resto até ao final do dia, e quando assim é, não vale a pena lutar contra isso. Fecho a porta e por momentos deixo-me estar, como se ali regressasse a dias melhores, dias de palmo e meio em que tudo o que queriamos era um beijo na face que nos acompanhasse até à escola e umas meias bonitas que ao final do dia estariam rasgadas pela euforia das horas gastas. Deixo-me estar no cansaço dos dias de hoje, que nos apagam e nos amarrotam, desrespeitando o que pretendemos. Ligo o rádio porque assim torna-se mais fácil desviar pensamentos, porque as vozes e os sons nos puxam para fora de nós. E fora de nós deixamos de estar dentro, e ao deixar de estar dentro deixa de ser Inverno. Olho em frente, e vejo o casal de namorados que toma o café da manhã, ainda a fumegar. Fazem-se planos para um futuro que ficou por vir, constróem-se narrativas carregadas de quereres. Ao lado o velhote de expressão doce, cujas rugas na cara mostram uma vida que ainda persiste. Passa os olhos por quem passa, porque quem passa, como tudo o resto, não fica. A senhora impecavelmente vestida na outra mesa, sem qualquer pormenor descurado, desde a cor das vestes, ao cabelo, passando pelos ornamentos que orgulhosamente carrega. Como uma capa do que foi outrora e que não quer perder hoje. O brio que trouxe consigo e que se recusa a largar. Vejo através do vidro embaciado todas as vidas que há lá fora, e para cada uma contruo a minha história do que serão as suas "estórias". Crio personagens que provavelmente existem longe do que realmente são. Gosto de imaginar os dias por trás dos gestos, do rubor da pele, do brilho do olhar ou da expressão vazia. Com tudo isto distraio-me e não reparo que já passou muito tempo. Tenho de me pôr a caminho, foi para isso que hoje acordei. Decido fazer uma troca e colocar o gorro. Deste modo, posso tirar o semblante carregado e deixá-lo ali mesmo à porta de casa. Pode ser que quando volte o frio seja tanto que o tenha afastado. Afinal de contas, ao abrir a porta de casa, no meu regresso ao que sou eu, as personagens da minha história estarão lá, exactamente como as sonhei.

Amargura

Perdemos demasiado tempo a ver maldade onde não a há. Perdemos demasiado tempo amuados com ninharias. Perdemos demasiadas horas de vida de cara fechada quando ao invés poderiamos rir com gosto. Perdemos energia ao tratar com indiferença quem gosta genuinamente de nós. Perdemos momentos quando nos afastamos por irritação. Perdemos a razão quando apregoamos uma coisa e fazemos outra. Perdemos, perdemos, perdemos. Acho que está na hora de começarmos a recuperar esse tempo perdido. Como? Simples. Ao tirar as máscaras que sufocam e apertam e condicionam e torcem o nosso sentir. E ao começarmos (de uma vez por todas) a perceber que o amor e a amizade e o companheirismo e a cumplicidade não se perdem em decisões que nos ferem o orgulho. Se assim for, é porque nunca existiram (em nós). Há que deixar a amargura no tapete à entrada da porta, tirar as roupas que pesam no corpo e seguir em paz para o acolhimento de quem nos quer bem. Tudo o que assim não for, serve apenas para destruir e pintar de negro o que poderia ser diferente. Cabe a cada um de nós escolher como queremos levar a nosa vida. Se amargurados por inutilidades, se felizes pelos pormenores que constroem os nossos dias. Por mim, fico-me pela segunda opção. Lamento, mas não perco mais tempo a pensar no que poderia ter sido, quando nesse tempo perdido poderia estar a viver o que, de facto, é.

Unidos, de facto

Acho o termo "união de facto" absolutamente hediondo. É quase tão mau como o termo "namorido", que algumas pessoas utilizam para se referir ao namorado, que sentem como sendo seu marido. Acho isto uma tentativa brejeira de inventar algo que no fundo, toda a gente sabe que não existe. Para mim, o absoluto é o mais real, é o mais genuíno. Não quero um sumo de manga-laranja, quero um apenas de laranja. Ou apenas de manga. A mistura é uma tentativa de ter o melhor dos dois mundos, sendo que ao fazer o mix, se perdem as propriedades verdadeiras de cada um.

A "união de facto, à luz da legislação portuguesa, é “a situação jurídica de duas pessoas que, não sendo casadas entre si ou com outrem, independentemente do sexo, vivam em condições análogas às dos cônjuges, há mais de dois anos”. Consideram-na similar ao casamento civil.

Condições "análogas" às dos cônjuges?!! 2 anos (um ano e meio ainda não serve...)?!! Para mim, o termo "união de facto" foi criado por alguém que queria não mais que fugir com o rabo à seringa. Um calmeirão que após vir do ginásio e se sentir adorado pelos espécimes femininos, sem sentir pinga de culpa por libertar feromonas no mesmo sentido, chega a casa e diz à namorada: "Querida, amo-te muito. Tanto mas tanto, que tomei uma decisão importante. Quero que sejamos unidos de facto. Ou seja, quero que continuemos exactamente como estamos agora, mas unidos. De facto. Não quero trocar votos sagrados contigo, não me quero casar contigo, não quero ter de utilizar uma aliança que simbolize o nosso amor, não quero colocar rótulos na nossa relação. Quero que sejas mais que minha namorada, mas menos que minha esposa. Pode ser?"

Não compreendo de todo porque é que as "uniões de facto" atribuem os mesmo direitos civis e legais que o casamento. E não compreendo talvez por ser naif, assumo. Talvez por ainda acreditar que a troca de votos é algo que confere um estatuto diferente a quem na mesma está envolvido. Um caminho que vai além das burocracias e da festa e dos sorrisos e dos copos e de tudo o que esse dia e essa decisão implicam. Não se casa de ânimo leve. Ou pelo menos, não se deveria fazê-lo. Já o ser unido de facto, é algo que hoje vimos acontecer todos os dias. Basta ir à Junta de Freguesia da esquina, alegar que se vive com a pessoa debaixo de mesmo tecto, e sair de lá com um papel passado e contentinho da vida.

Lamento se ainda acredito que o matrimónio é mais que tudo isso. E lamento se abomino algo que para tantos, é a situação ideal de estar na vida. Unidos, de facto. Mas no fundo, não tanto assim.

Do (vulgo) amigo, qual mocho-galego

Sempre gostei de mochos. Têm um ar misterioso, olhos arregalados e estão associados desde sempre à sabedoria. Diz-se que são cegos à nascença, dotados de uma audição muito apurada, sendo também solitários e tímidos. No fundo, como alguns de nós. Mas de entre todos os mochos, de todo o mundo, há uma espécie que me é particularmente grata. Isto porque se assemelha bastante com o ser humano, numa ou várias das suas vertentes. Apresento-vos então o mocho-galego.


"O mocho-galego (Athene noctua) é uma espécie de ave estrigiforme pertencente à família Strigidae. É um animal de hábitos marcadamente nocturnos, embora, quando as condições o permitam, seja comum observá-lo durante o dia ou crepúsculo. De carácter oportunista, na dieta deste animal estritamente carnívoro (assim como todos os restantes mochos e corujas) figuram os mais variados tipos de presa: desde invertebrados terrestres, anfíbios, répteis, outras aves, e até mesmo animais atropelados em vias rodoviárias, de entre outros. É uma espécie sedentária, com preferência para zonas de planície e vegetação baixa, embora seja uma espécie com bastante polivalência em relação a este aspecto, sendo observada nos mais diversos tipos de habitat, incluindo zonas urbanas" (fonte Wikipédia).

Venho então falar-vos, com base nesta descrição do nosso querido mocho-galego, de uma nova espécie, apelidada de "mochamigo-galego". O mochamigo-galego é aquele fiel companheiro de copos que achamos que depois de uma noite bem regada estará lá no outro dia para tomar o gurosan connosco. Mas não. O mochamigo-galego, tal como a espécie da qual advém, é um animal maioritariamente de hábitos nocturnos ou que apenas aparece durante o dia quando existe algo deveras importante para o fazer sair do ninho. Descobrimos então aos poucos e fruto das vicissitudes da vida que o que é importante para o mochamigo-galego, não vai de todo ao encontro do que é importante para nós. Para ele, o importante é a festa feita à noite, para nós, é o amparo do dia seguinte. Outra característica do mochamigo-galego é o facto de se tornar por vezes um ser oportunista, que procura a sua presa consoante o lado para onde acorda virado. Se abre os olhos virado para a esquerda, interessa o afecto e as memórias e o passado e o que está para vir, se acorda virado para a direita, tudo isso não passa de vislumbres do que já passou e que nenhuma importância parece ter nos dias de hoje. O que já lá vai foi apagado da memória do mochamigo-galego, e o que importa é a vulgaridade e a efemeridade das relações passageiras do presente, que deixam marcas tão profundas que com o mesmo fulgor com que começam, terminam. Esta espécie de mochamigo-galego é sedentária e quando sai fora do seu poiso, por vezes mal se deixa ver. Prefere o quentinho do ninho, sentindo-se no entanto bem em vários habitats. Desde que o mesmo esteja decorado à sua maneira, não restem dúvidas. O mochamigo-galego por vezes incorre na rebeldia de saltar da árvore e deixar-se ver, mas tal como aparece desaparece, deixando nos restantes espécimes uma sensação de vazio, e a estranha sensação de que aquele talvez possa não ser o seu mochamigo-galego, mas sim outro qualquer, que existe numa realidade paralela só sua, e que um dia se assemelhou ao mochamigo-galego que outrora num passado tão longo como recente, fez parte das suas vivências. 

Apesar desta espécie me ser particularmente grata face à sua semelhança com os nossos semelhantes (passo a redundância), creio que só teria a ganhar ao aproximar-se de novas espécies de mocho, que evoluiram fruto do correr dos tempos. Não quero que entre em extinção, mas sim que se sinta crescer. Por exemplo, temos o exemplo do mocho-dos-banhados, também conhecido como coruja-do-bornal. Este sobrevoa várias vezes os locais que sente pertencerem-lhe por afinidade, e acaba sempre por voltar aos mesmos. Espécie com valores em extinção, esta. Que apesar de distante, acaba sempre, independentemente das circunstâncias, por regressar onde está aquilo ou aqueles que lhe importam. E ainda dizem que os animais não têm sentimentos. Crie-se uma escola de mochos para amigos, e sou a primeira a colocar uma série de inscrições na mesma. Hoje mesmo.

O jogo

Somos seres com pele, osso e sangue. Seres com coração, alma e sentir. Deixamo-nos cair por amor, ao amar sem querer quem surge em nós. A vida começa lado a lado, os caminhos convergem para o mesmo sítio, as noites são mais claras. Traçam-se planos, traçam-se futuros que não existem. Acredita-se que qual escada rolante, sem se ter de fazer muito se chegará ao destino prometido. Basta decidir subir. E o resto a vida encarrega-se de fazer. E passado uns tempos, descobre-se que isto não existe. O facilitismo não existe no sentimento maior. A existir, o que me apraz pensar é que seria batota. Seria batota tentar chegar ao cimo sem passar pelas várias etapas. Seria como jogar Monopólio, e não cair pelo menos uma vez na cadeia, ou ter de pagar porque o terreno de alguém nos afundou ao passarmos. Mudam-se os anos, mudam-se as prioridades. Consolidam-se as vontades, alicerçam-se os quereres. Como é possível chegar ao fim do jogo sem alterar a forma como se lançam os dados? Sem alterar a forma como movemos o nosso peão? Se formos sempre pelo mesmo sítio, às tantas andamos às voltas. Se não quisermos terminar o jogo, é de facto a táctica eficaz e (quase) infalível. Se apenas quisermos passar um bom momento, rirmos q.b., termos as sensações passageiras de um prazer efémero, de promessas que ficam no copo de vinho e no cigarro apagado.  Andamos em circulos, não há como cair fora. É seguro, nunca corremos o risco de ter de pagar por aquilo que nunca adquirimos. E de percebermos que não o comprámos porque no fundo não queriamos que fosse nosso. É como que um aluguer sempre com um prazo de validade, mas com a desculpa de que pode ser para sempre. Assim não vale. É batota. Lamento. Não é correcto. O aluguer aumenta, e temos de decidir ficar ou mudar. E se os tempos mudam e as vontades se aguçam as prioridades têm (obrigatoriamente) de mudar. Não queremos a meio do jogo o que queríamos no princípio. Queremos comprar terrenos e meter hotéis e de vez em quando (até) ganhar. Senão, mais vale deixarmos o Monopólio e jogarmos à sueca. Que é a quatro, mete cumplicidade disfarçada, várias mãos e um tempo limitado. Não tem nada que saber. Tão rápido como começa pode terminar. Seja pelos outros, seja por nós. Jogamos o que temos, e a mais não somos obrigados.

Os calimeros

Eu hoje ía falar sobre uma doença que afecta grandemente algumas pessoas, e que dá pelo nome de calimeirice aguda, mas acho que não vale a pena dar-lhe tanta importância. Isto porque quem padece desse mal alimenta-se invariavelmente das conversas, das penas, das atitudes, dos lamentos dos outros. Ontem em conversa alguém dizia que a velocidade das baratas aumenta exponencialmente consoante aumenta o seu tamanho. Também os coitadinhos desta vida aumentam a sua condição e agigantam-se consoante maior seja o foco que se lhes coloque em cima. O segredo neste caso é não alimentar lamurias. Se ignorarmos, acabam por ir mirrando aos poucos. Que no fundo, é o que convém. Se dermos azo à sua pieguice infundamentada, então é vê-los crescer e ganhar asas. E quando um sofredor de calimeirice aguda cresce, é bom que nos afastemos. Porque vai rapidamente querer (a)pegar-se à nossa pele, qual osga carente em noite de Verão. E deixar marca. Aquela marca que o rastejante deixa, que é como que uma vermelhidão que dá comichão e incomoda. E coçamos e só agrava. É essa a marca que o doente quer deixar. Quer incomodar os outros com o seu sofrimento idealizado. Quer que os outros pensem nele quando estão plenos, e se sintam culpados por (pasme-se) estarem bem. É uma patologia complicada, pior ainda porque quem a tem, normalmente sabe que é portador. Não passa pela fase da negação, que é sempre a primeira desculpa que se dá a quem evita tratar-se. Os calimeros que se nos atravessam no percurso assumem a alto e bom som que têm vidas desgraçadas. Que tudo lhes cai em cima. Que só lhes acontecem coisas más. Que ninguém lhes liga. Que são ignorados. Colocam-se no pedestal da "poucochinhice". É cansativo quando por descuido os deixamos entrar e revolver-nos as entranhas. E é por isso que eu resolvi adquirir o antídoto. Aquele que me permite ser feliz sem culpas, aquele que me permite ter o proveito da fama alcançada pelo carimbo de mau feitio, aquele que me permite limpar dos ombros o peso de quem se acha o pintainho com a casca de ovo na cabeça. Alguém (com mais paciência que eu) que um dia lhes faça ver que se tirarem a casca e se deixarem de lamentar, passam a ser pessoas comuns, com vidas passíveis de ser não menos do que extraordinárias. E na volta, começam a ser felizes. Ah, mas espera. Isso não dava jeito nenhum, não era?

Sonhos embargados

A palavra "embargado" faz-me sempre lembrar o construtor que iniciou a obra do condomínio, e que por falta de liquidez teve de parar a meio. O "embargar" para mim é o parar devido a obstáculos, visíveis ou não. É o não conseguir concluir um projecto, por falta de qualquer coisa. É o colocar o que se deseja na gaveta, e esperar. Esperar pelo momento em que se possa voltar a abrir a mesma, esperar pela altura em que tudo esteja alinhado para que os desejos se cumpram, esperar que o amor ganhe estatuto em dias, meses, anos, esperar que o vil metal aumente, esperar que alguém se chegue à frente, esperar que hajam dias suficientes, esperar que haja sol, esperar que não chova, esperar que não se acabe a fonte de abundância, esperar que o relógio avance, esperar que a vida esteja perfeita. Até lá, ficam os sonhos embargados. Ficam os sonhos presos a motivos e a condições que parecem (profundamente) essenciais. Ficam os desejos escondidos à espera que a gota de água perfeita caia no sulco perfeito do chão e crie a poça perfeita. Esperar, esperar, esperar. O que acontece não raras vezes com as obras embargadas é que acabam por assumir o estatuto de devolutas. Porque o construtor se esqueceu delas, porque criou novos desejos (mais pequenos e reais), porque edificou muros em vez de casas, porque as largou sem regressar. Esquecidas. O mesmo acontece com os sonhos que não realizamos. Ficam por ali, num baú da nossa memória, como saudosos episódios do que poderia vir a ser. Ficando sempre o "e se". E se não fosse necessário picar todos os pontos para se poder avançar? E se não fosse necessário alcançar a condição definida pelas marionetas do costume para podermos criar a nossa obra? Os sonhos embargados não são mais do que pequenos rasgões nas folhas do nosso livro. Em que por sua causa, acabamos por saltar dois parágrafos, mas como percebemos na mesma a história, nem achamos essa falta significativa. Idiotas que somos. E tão mais felizes seriamos se arriscassemos ler a história por completo. Veriamos por certo que os pormenores arrancados em palavras eram, no fundo, o que daria todo o sentido ao nosso conto.

Amo "te"

O "amo-te" deveria pagar imposto quando utilizado indevidamente. Deveria ter uma espécie de alarme, que quando invocado incorrectamente, despoletasse uma sirene e uma voz ameaçadora que diria algo como "Utilizou a palavra amo-te levianamente. Por favor dirija-se ao guichet mais próximo, para que seja devidamente autuado pela sua acção". Quando temos 14 anos é muito simples dizer um "amo-te". Andamos no 8.º ano e encantamo-nos pelo rapaz do 9.º, moreno e de sorriso sincero, jeans rotos e ar rebelde, e que naquela altura nos parece perfeito. Por algum acaso, ele também nos acha piada. Começam as mãos dadas, os beijos atrás do pavilhão, os passeios de Casal Boss ou de DT, as idas ao café no final da tarde, e às tantas, sai a ambos um "amo-te". E aquele "amo-te", eu aceito. Porque é dos primeiros, porque é aquilo que para nós, na altura, dignifica aquilo que sentimos pelo nosso principe adolescente de mochila Monte Campo. Depois crescemos, e com o crescer, todo um novo mundo se abre à nossa frente. Andamos por vários caminhos, experienciamos vários amores, e percebemos cada vez mais que o "amo-te" se tornou banal, e que é dito por qualquer réstia de gostar. Por qualquer carícia. Por qualquer dia bom. Por qualquer pequeno sentir que acalenta a esperança de que aquele "amo-te" um dia faça sentido, e seja algo mais do que é naquele momento. Ao fim de poucos dias já há um "amo-te". E não pode haver. Lamento. O puro, o verdadeiro "amo-te", tem de ser vivido. Tem de passar por montanhas sinuosas, tem de passar por temporais, tem de passar por dias de sol firme, tem de passar por dias cinzentos, tem de passar por gargalhadas, por mágoas, por lágrimas, por abraços, por suspiros, por esperanças, por anseios, por quedas, por noites em silêncio e por noites iluminadas. O verdadeiro "amo-te" tem de vir das entranhas, e ser dito quando já explodir no peito e chegar a doer. O verdadeiro "amo-te" não é sussurrado ao ouvido depois de uma ida ao cinema. É gritado com toda a nossa pele, com todos os nossos ossos, com todo o nosso sangue. Ao ponto de nos deixar esgotados. Com o cansaço bom que só se consegue após dizermos em voz alta (que é quando as coisas se tornam reais) o que foi crescendo em nós. O verdadeiro "amo-te" não é o socialmente "correcto" e com prazo de validade. O verdadeiro "amo-te" é o que desafia os limites do simples gostar. O que só aparece quando já sentimos ser demasiado egoísta guardá-lo em nós. E quando o mundo nos parece (finalmente) infinitamente pequeno para o conter.

Quando anoitece

É quando anoitece que procuramos respostas para as perguntas que não temos. Somos mais pequenos, estamos mais quietos, mais calados, mais em nós. Ouvimos sons que durante o dia nos parecem diferentes. Sentimos brisas que durante o dia não aparecem. Percebemos cheiros de rio que se confundem com odores de campo, de rua, com vidas que caminham nos passeios. É quando anoitece que desejamos mais o que durante o dia adormecemos em nós. Porque (dizem) que de dia, não dá jeito sonhar. Ousa interferir com a vida que nos fizemos calhar, faz-nos pôr em causa as horas iguais. E é quando anoitece que sentimos mais falta. Que queremos mais estar. Que nos apetece mais traçar percursos. Que sentimos com mais força que o que procuramos, pode ser nosso. É quando anoitece que não queremos estar sós. Ao estarmos sós, os sonhos que temos em nós perdem-se inevitavelmente no nosso silêncio. Camuflados. Esfumados. É quando anoitece que queremos revelar tudo o que nos deixa com sorrisos patetas no rosto e borboletas no estômago. É quando anoitece que perdemos os receios. Que o (nosso) mundo fica mais claro apesar da escuridão que insiste em fazer-se mostrar lá fora. É quando anoitece que nos resolvemos. E é na noite que nos entregamos. Que voltamos ao que somos. E que ansiamos que a manhã chegue depressa. Para podermos acordar, e ter a certeza de que a noite passada, de facto, aconteceu. E que os ideais da noite são agora os nossos caminhos. Do dia.

Carta ao São (em Primavera tardia)

Querido São Pedro,

Sabes que eu sempre gostei de ti, e que temos passado bons momentos juntos. Lembras-te daquela tarde na Fonte da Telha, em que estava um vento estúpido e em que tu, para que eu deixasse de levar com areia na boca, acabaste com ele? E quando trovejou como se o mundo fosse acabar, e eu tinha de ir para casa e só pensava que um raio me ía cair mesmo ali? Que fizeste tu? Pimbas. Um gesto, e a trovoada passou. Lembras-te das noites estreladas de Verão e das tardadas de Primavera a passear no parque? 32 graus e uma brisa suave... Mas São (somos amigos e sei que te posso tratar assim), ultimamente, não te andas a portar bem. Ele é calor abrasador em Março, ele é chuvadas e frio em Abril, uma pessoa já sai de casa de galochas e t-shirt, para estar preparada para tudo. Não gosto de não saber com o que contar. Pois que se é Inverno, saio agasalhada de casa, pois que se é Verão saio levezinha de chinelo no pé. Mas isto, São?!! Isto é esquizofrénico... Pois que há umas horas atrás estava eu numa esplanada a apanhar sol, passo às praias e já se vê gente estendida, famílias que trazem finalmente as crianças pálidas à rua, e toda a gente feliz, e hoje é isto?!! Hoje saio de casa e lá fora, é o dilúvio?!!! Quase que juro que vi Noé na A5, a tentar salvar a bicharada toda. Isto assim complica-me os nervos. A sério. Eu sei que andas stressado com uma série de coisas (ele é os subsídios, ele é o estado do país, ele é o Pingo Doce...), mas tenta lá superar isso, que o povo não tem culpa. Vá lá... Dou-te até ao final desta semana para corrigires a asneirada que andas a fazer. Se conseguires, amigos como dantes. Se não, vou avançar com uma petição para passar o pelouro do tempo para outro Santo. Quiçá o António, que sempre me pareceu um rapaz que gosta de dar o seu mergulhinho ali nas Avencas e apanhar um solzinho. Não te chateies comigo. Se não sou eu a dizer-te isto, que sou tua amiga, quem será?! Os outros pensam o mesmo, mas só falam nas tuas costas. Os cafagestes. Sabes que te adoro. Mas atina lá, ok? 


Beijinho grande, sempre tua,
Marta.


Part-time

Nunca fui grande adepta do part-time. Não gosto de vidas em part-time, de amores em part-time, de sorrisos em part-time, de abraços em part-time, de conversas em part-time. E não gosto, particularmente, de amizades em part-time. Aquelas que só funcionam nas horas vagas, quando o relógio, ou os dias, ou as vontades ou as opções, ou os "hoje dá-me jeito" o justificam. As chamadas curta-metragens. Para mim, tal não faz parte do meu filme. Sou uma pessoa plena, que exige não menos que a plenitude. Isto não é possível? Então, um bem haja. E um bom dia a todos. Eu, fico por aqui. Com a inteireza da(s) minha(s) pessoa(s). Que me completa, e me faz ser (todos os dias) um pouco mais feliz.

Dizem

O sol nasce todos os dias. Dizem. (Re)nascemos (nós) com ele. Pena não podermos levantar-nos sempre com o tal do brilho a ser mais forte, com a tal da atitude a querer despontar, com a tal da vontade a ser maior, com a tal da esperança a querer ser gente, com as tais das certezas incontornáveis (em nós). Pena que desabemos um pouco, por vezes. Pode ser apenas por segundos, pode ser apenas por suposições, pode ser apenas na duração de um sopro que mal se sente. Sentimo-lo nós. Ao sermos sangue, e pele e coração, somos frio, somos fragilidade, somos medo. Somos (nós). Irrepreensíveis no nosso modo de existir, culpados pelo nosso modo de sentir. Resta-nos (re)nascer, como o sol faz todos os dias. Dizem.

(Re)começos

Não interessa o que passou. Não interessa dividir o bom do menos bom. Não interessa o (tal do) balanço. Interessa (re)começar. Interessa sorrirmos, interessa a nossa determinação, interessa a nossa vontade, interessa o nosso querer, interessam as amizades, os nossos amores, os nossos sentires. Que a cada novo ano não fiquemos sentados à espera que a vida nos aconteça. Ela já nos tem. Sejamos ousados na forma de sonhar, e ainda mais na forma de concretizar. Se a página volta a estar em branco (como queremos ingenuamente acreditar), devemos então (obrigatoriamente) ser nós a escrevê-la. Os dias serão nossos. Basta (somente) dar o primeiro passo.